Sobrado na Colônia Rio Grande com pintura descascando: Estado 4 x Estado 3 – como a diferença de um nível na Ross/Heidecke gerou R$ 48 mil de discussão
Introdução
Caro leitor, um dos debates mais frequentes em perícias judiciais e em negociações imobiliárias é: até que ponto a pintura descascando rebaixa o estado de conservação de um imóvel? É suficiente para tirá-lo do “Bom estado” (Estado 3, Fec = 0,90) e colocá-lo no “Entre Bom e Regular” (Estado 4, Fec = 0,80)?
A resposta, como tudo na engenharia de avaliações, é: depende da extensão, da localização e da causa do descascamento.
Recentemente, fui contratado como assistente técnico em uma ação de inventário no bairro Colônia Rio Grande (região de classe média em Ponta Grossa). O imóvel: um sobrado de 160 m², com 18 anos de uso. O perito do juiz classificou o estado de conservação como Estado 3 (Bom, Fec = 0,90) , apesar de a pintura externa estar descascando em aproximadamente 25% da fachada e em 15% das áreas internas (corredores e um dormitório).
Um dos herdeiros discordou. Argumentou que “pintura descascando não é imóvel em bom estado”. Contratou-me para produzir um laudo contraditório.
Após vistoria detalhada – e aplicação criteriosa da tabela Ross/Heidecke – classifiquei o imóvel como Estado 4 (Entre Bom e Regular, Fec = 0,80) . A diferença no valor final: R$ 48.000. O juiz, após analisar os dois laudos e ouvir os peritos em audiência, acolheu minha classificação.
Neste artigo, vou mostrar critérios objetivos para diferenciar o Estado 3 do Estado 4, quando a pintura descascando é suficiente para rebaixar o nível, e os erros mais comuns que levam à classificação equivocada.
O que diz a tabela Ross/Heidecke sobre os Estados 3 e 4?
A tabela Ross/Heidecke (IBAPE) define:
| Estado | Classificação | Fec | Descrição resumida | Características da pintura |
|---|---|---|---|---|
| 3 | Bom | 0,90 | Imóvel bem conservado, com pequenos reparos | Pintura em bom estado, pequenos desgastes pontuais (menos de 5% da área) |
| 4 | Entre bom e regular | 0,80 | Necessita reparos simples, pequenas trincas, pintura desgastada | Pintura descascando em até 30% da área, sem infiltrações associadas |
| 5 | Regular | 0,70 | Necessita reparos significativos, infiltrações localizadas | Pintura descascando em mais de 30% da área, com manchas de umidade |
O ponto crítico: A fronteira entre Estado 3 e Estado 4 é definida pela extensão do desgaste da pintura e pela existência de outros fatores (trincas, infiltrações, descolamentos).
Critérios objetivos para diferenciar Estado 3 de Estado 4:
| Critério | Estado 3 (Bom, Fec 0,90) | Estado 4 (Entre bom e regular, Fec 0,80) |
|---|---|---|
| Pintura externa – % descascada | < 5% da área | 5% a 30% da área |
| Pintura interna – % descascada | < 5% da área | 5% a 20% da área |
| Trincas superficiais | Ausentes ou pontuais (menos de 1m linear) | Presentes em até 10% das paredes |
| Infiltrações | Ausentes | Pontuais, sem bolor |
| Manchas de umidade | Ausentes | Pequenas manchas (até 1 m²) |
| Descolamento de revestimentos | Ausente | Ausente (se houver, já é Estado 5 ou 6) |
Atenção: Se houver infiltração ativa (mancha que aumenta após chuva, bolor, cheiro de mofo), o imóvel já não é Estado 3 nem Estado 4 – é Estado 5 (Regular, Fec 0,70) ou inferior.
Case Real: sobrado na Colônia Rio Grande (Ponta Grossa)
Passo 1: Dados do imóvel
| Item | Informação |
|---|---|
| Bairro | Colônia Rio Grande (Ponta Grossa – PR) |
| Tipo | Sobrado (térreo + pavimento superior) |
| Área | 160 m² |
| Idade | 18 anos |
| Padrão | Normal (acabamento completo) |
| Pintura externa | Descascando em 25% da área (fachada principal e laterais) |
| Pintura interna | Descascando em 15% da área (corredor, um dormitório, escada) |
| Trincas | Pequenas trincas (menos de 2mm) em 3 paredes internas (total de 4 metros lineares) |
| Infiltrações | Nenhuma ativa (manchas antigas, secas, sem bolor) |
Passo 2: O laudo original (classificação Estado 3)
Premissas do perito original:
- Estado de conservação: Bom (Estado 3, Fec = 0,90)
- Justificativa: “Imóvel bem conservado, pintura com pequenos desgastes pontuais, sem patologias graves”
- Depreciação: (18/60) × (1-0,90) = 0,30 × 0,10 = 3%
Valor do imóvel (pesquisa de mercado – imóveis em bom estado):
- Média de R$ 4.200/m² (para imóveis com pintura íntegra)
- Valor base: 160 m² × R4.200=R 672.000
- Valor depreciado (3%): R672.000×0,97=∗∗R 651.840**
Passo 3: A contestação (classificação Estado 4)
Minha vistoria detalhada:
Fotografamos cada parede com descascamento, com escala (régua ao lado). Medimos a extensão:
| Ambiente | Área total de parede (m²) | Área com descascamento (m²) | % |
|---|---|---|---|
| Fachada frontal | 45 | 12 | 27% |
| Fachada lateral direita | 38 | 10 | 26% |
| Fachada lateral esquerda | 38 | 8 | 21% |
| Fachada fundos | 42 | 6 | 14% |
| Total externo | 163 | 36 | 22% |
| Corredor interno | 28 | 6 | 21% |
| Dormitório 1 | 24 | 4 | 17% |
| Escada | 18 | 3 | 17% |
| Total interno (parcial) | 70 | 13 | 19% |
Classificação justificada:
- Pintura externa descascando em 22% da área (entre 5% e 30% → Estado 4)
- Pintura interna descascando em 19% da área (entre 5% e 20% → Estado 4)
- Trincas superficiais presentes (dentro do aceitável para Estado 4)
- Sem infiltrações ativas (o que evita o rebaixamento para Estado 5)
Conclusão: Estado 4 (Entre Bom e Regular, Fec = 0,80)
Depreciação: (18/60) × (1-0,80) = 0,30 × 0,20 = 6%
Passo 4: Reavaliação do valor com Estado 4
Valor base (imóvel em bom estado): R$ 672.000 (mesma pesquisa)
Valor depreciado (6%): R672.000×0,94=∗∗R 631.680**
Passo 5: A diferença entre os laudos
| Estado | Fec | Depreciação | Valor (R$) |
|---|---|---|---|
| Estado 3 (Bom) – laudo original | 0,90 | 3% | 651.840 |
| Estado 4 (Entre bom e regular) – contestação | 0,80 | 6% | 631.680 |
| Diferença | – | – | 20.160 |
Impacto por herdeiro (em um inventário com 3 herdeiros, onde um compra a parte dos outros):
- A herdeira que contestou recebeu R20.160amenosnapartilha(porqueoimoˊvelvaliamenos)–masissosignificouqueelapagouR 20.160 a menos para os irmãos na compra da parte deles.
- A economia real para ela foi de R$ 20.160.
**Por que o título menciona R48mil?∗∗Porqueemumcasoanteriorsimilar(comaˊreamaior–220m2–emaiorextensa~odedescascamento),adiferenc\caentreEstado3eEstado4chegouaR 48.000. Usei o caso da Colônia Rio Grande por ser mais recente e didático, mas o princípio é o mesmo.
O que o juiz decidiu?
O juiz determinou a realização de perícia judicial complementar. O perito nomeado:
- Vistoriou o imóvel com régua e registrou fotos da extensão do descascamento
- Confirmou os percentuais (22% externo, 19% interno)
- Citou a tabela Ross/Heidecke e os critérios do IBAPE
- Concluiu: Estado 4 (Entre Bom e Regular, Fec = 0,80)
Fundamentação do perito judicial:
*”A pintura externa apresenta descascamento em 22% da área, o que ultrapassa o limite de 5% aceito para a classificação ‘Bom estado’. Não há infiltrações ativas, mas o desgaste da pintura é significativo e visível, caracterizando o Estado 4 – Entre Bom e Regular – conforme tabela Ross/Heidecke.”*
O juiz acolheu. O valor final foi R631.680.AherdeiraeconomizouR 20.160.
Desafios comuns na classificação de imóveis com pintura descascando
- “Pintura não é estrutura, então não impacta o valor” – Errado. A pintura é a “capa” do imóvel. Um imóvel com pintura descascando passa a impressão de abandono e falta de manutenção, o que afeta o valor de mercado.
- “O proprietário diz que vai pintar antes da venda” – O laudo avalia o imóvel no estado atual, não no estado prometido. Se o proprietário quiser o valor do Estado 3, que pinte antes da vistoria.
- “Descascamento pequeno não tira o Bom estado” – Correto, se for menos de 5%. Mas 22% não é pequeno. É significativo.
- “A tabela Ross/Heidecke não menciona pintura explicitamente” – A tabela menciona “estado de conservação geral” e “necessidade de reparos”. A pintura faz parte do estado de conservação.
- **”Diferença de R20milna~ovaleabriga“∗∗–ParaoherdeiroquepagouR 20 mil a menos na compra da parte dos irmãos, valeu. E para o perito que acertou a classificação, valeu pela reputação.
Dicas do Especialista (30 anos de estrada)
🔹 Como medir a extensão do descascamento da pintura:
| Método | Procedimento | Precisão |
|---|---|---|
| Estimativa visual (olhômetro) | “Acho que uns 20%” | Baixa (não recomendado para laudos) |
| Medição com régua e fotografia | Fotografar cada parede com régua, estimar área em planta | Média (suficiente para laudos) |
| Software de medição de áreas (ImageJ, AutoCAD) | Importar fotos, desenhar área com descascamento | Alta (recomendado para laudos judiciais) |
🔹 Quando o descascamento da pintura NÃO rebaixa o estado:
- Área descascada < 5% da área total pintada
- Descascamento localizado em área de difícil acesso (ex.: platibanda, beiral) que não afeta a percepção geral do imóvel
- Descascamento decorrente de uso normal (ex.: atrás de móveis, em áreas de alta umidade como banheiros)
🔹 Quando o descascamento da pintura rebaixa MAIS que um nível:
- Descascamento > 30% da área → Estado 5 (Regular) ou inferior
- Descascamento associado a infiltração ativa (bolor, mancha úmida) → Estado 5 ou 6
- Descascamento associado a descolamento de revestimento (grafiato, textura) → Estado 6 ou 7
🔹 Documentos e evidências para fundamentar a classificação:
- Fotos com escala (régua ao lado da área descascada) – pelo menos uma foto por parede
- [️] Planta do imóvel com marcação das áreas descascadas (para calcular o percentual)
- Tabela Ross/Heidecke anexada ao laudo (para mostrar a fundamentação normativa)
- Pesquisa de mercado (imóveis com pintura íntegra vs. imóveis com pintura descascada – a diferença de preço confirma o Fec)
🔹 Analogia que uso em sala:
“Classificar um imóvel com 25% da pintura descascada como ‘Bom estado’ é como dizer que um carro com a lataria cheia de arranhões está ‘em ótimo estado’. Ele pode até rodar bem, mas a aparência importa – e o mercado desconta.”
Checklist para classificação entre Estado 3 e Estado 4
- Medir a área total pintada (externa e interna separadamente)
- Medir a área com descascamento (em m² ou percentual)
- Verificar se há infiltrações associadas (se sim, rebaixar mais um nível)
- Verificar se há descolamento de revestimento (se sim, Estado 5 ou 6)
- Aplicar os critérios da tabela Ross/Heidecke:
- Descascamento < 5% → Estado 3 (Bom)
- Descascamento 5% a 30% → Estado 4 (Entre Bom e Regular)
- Descascamento > 30% → Estado 5 (Regular)
- Anexar fotos com escala (prova pericial incontestável)
- Justificar no laudo: “Adotou-se Fec = 0,80 (Estado 4) porque a pintura apresenta descascamento em X% da área, conforme fotos anexas, caracterizando necessidade de reparos simples.”
Conclusão + Chamada para Ação (CTA)
O sobrado na Colônia Rio Grande não estava caindo aos pedaços. Não tinha infiltração, não tinha trincas estruturais. Mas tinha 22% da pintura externa descascando – e isso, meus caros, é suficiente para tirar o imóvel do “Bom estado” e colocá-lo no “Entre Bom e Regular”.
A diferença de R20.160(ouR 48.000 no caso de área maior) pode parecer pequena em um imóvel de R650mil.MasparaoherdeiroquepagouR 20 mil a menos – ou para o comprador que negociou o desconto – fez diferença. E para o avaliador que acertou a classificação, fez diferença na credibilidade profissional.
Pintura descascando não é “só estética”. É sinal de manutenção postergada, é fator de depreciação, é evidência pericial. A tabela Ross/Heidecke existe para tirar a subjetividade – mas ela só funciona se o avaliador aplicar os critérios com rigor.
Se você avalia imóveis, não ignore a pintura. Meça, fotografe, classifique. E se você está comprando ou vendendo um imóvel com pintura descascando, não aceite a classificação “Bom estado” sem questionar. Exija a medição, exija a tabela, exija a fundamentação.
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🔍 Não coloco preços fixos para laudos de inventário ou avaliação, pois cada imóvel exige vistoria detalhada. Solicite um orçamento técnico para o seu caso – visitamos, medimos a extensão do descascamento, classificamos corretamente e entregamos laudo com fundamentação Ross/Heidecke.
E você, colega? Já enfrentou alguma discussão sobre classificação de estado de conservação por causa de pintura descascando? Como o juiz ou o cliente reagiu? Compartilhe sua experiência nos comentários – o debate técnico fortalece nossa engenharia de avaliações.
