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Sobrado com infiltração na cobertura: como fundamentar o estado de conservação na tabela Ross/Heidecke – um case de R$ 87 mil em depreciação

Sobrado com infiltração na cobertura: como fundamentar o estado de conservação na tabela Ross/Heidecke – um case de R$ 87 mil em depreciação

Introdução

Caro leitor, se há uma patologia que mais tenho encontrado em sobrados de 15 a 25 anos – especialmente na região metropolitana de Curitiba e no Oeste do Paraná – é a infiltração na cobertura. O problema não é apenas estético. A água que penetra pelo telhado danifica forros, paredes, pintura, instalações elétricas e, com o tempo, pode comprometer a estrutura.

O grande desafio para o avaliador é: como fundamentar tecnicamente o estado de conservação de um imóvel com infiltração ativa? O proprietário diz que “é só consertar uma telha”. O comprador pede um desconto de 20%. O perito precisa dar um número objetivo.

Recentemente, fui contratado para avaliar um sobrado de 180 m² no bairro Panorama (Ponta Grossa), com 18 anos de uso, padrão Normal. O imóvel apresentava infiltração ativa na cobertura, afetando o forro de gesso do pavimento superior (30% comprometido) e as paredes de três dormitórios (manchas de umidade, bolor em um deles). A goteira era visível em dias de chuva.

Após vistoria detalhada – incluindo acesso ao telhado (com escada), termografia e medição das áreas afetadas – classifiquei o imóvel como Estado 5 (Regular, Fec = 0,70) , com argumentação complementar baseada no custo de reparo (SINAPI). O laudo original (de um perito anterior) havia classificado como Estado 3 (Bom, Fec = 0,90). A diferença no valor final: R$ 87.000.

Neste artigo, vou mostrar passo a passo como fundamentar a classificação do estado de conservação para sobrados com infiltração na cobertura, quando rebaixar para Estado 4, 5 ou 6, e os elementos de prova que convencem o juiz (ou o comprador).


Infiltração na cobertura: impactos no estado de conservação

A infiltração na cobertura não é uma patologia única. Ela afeta múltiplos componentes do imóvel:

Componente afetadoConsequênciaImpacto na depreciação
Telhado (telhas, madeiramento, rufos)Telhas quebradas, madeira apodrecida, calhas enferrujadasAumenta a idade aparente em 10-20 anos
Forro de gesso ou madeiraManchas, descolamento, bolorReduz o Fec em 0,10 a 0,20
Paredes internasManchas de umidade, bolor, pintura descascandoReduz o Fec em 0,05 a 0,15
Instalações elétricasCurto-circuito, risco de choqueRisco de segurança – reduz valor
Piso (se for de madeira)Manchas, apodrecimentoReduz o Fec em 0,10
Estrutura (caso extremo)Corrosão de armadura, perda de resistênciaEstado 7 ou 8 (mau a ruína)

Tabela de correspondência: gravidade da infiltração × estado de conservação

Gravidade da infiltraçãoEstado sugeridoFecExemplo
Infiltração pontual (menos de 5% da área do forro/paredes), sem bolorEstado 4 (Entre bom e regular)0,80Mancha pequena, seca, sem recorrência
Infiltração moderada (5-15% da área), com manchas de umidade, sem bolorEstado 5 (Regular)0,70Várias manchas, pintura descascando
Infiltração significativa (15-30% da área), com bolor ativo, cheiro de mofoEstado 6 (Entre regular e mau)0,55Goteira em dia de chuva, forro descolado
Infiltração grave (>30% da área), com danos estruturais ou risco de desabamentoEstado 7 (Mau) ou inferior0,40 ou menosMadeiramento podre, forro caindo

Case Real: sobrado no Panorama (Ponta Grossa)

Passo 1: Dados do imóvel

ItemInformação
BairroPanorama (Ponta Grossa – PR)
TipoSobrado (térreo + pavimento superior)
Área180 m²
Idade18 anos
PadrãoNormal
CoberturaTelha cerâmica + madeiramento + forro de gesso
ProblemaInfiltração ativa na cobertura, afetando o pavimento superior

Passo 2: O laudo original (classificação Estado 3 – errada)

Premissas do perito original (contratado pelo proprietário):

  • Estado de conservação: Bom (Estado 3, Fec = 0,90)
  • Justificativa: “Pequenas manchas de umidade no forro, sem comprometimento estrutural”
  • Depreciação: (18/60) × (1-0,90) = 0,30 × 0,10 = 3%
  • Valor do imóvel (pesquisa de mercado): R4.500/m2×180m2=R4.500/m2×180m2=R 810.000
  • Valor depreciado: R810.000×0,97=R810.000×0,97=∗∗R 785.700**

Passo 3: Minha vistoria detalhada

Acesso ao telhado (com escada e autorização do proprietário):

Item vistoriadoO que encontrei
Telhas15% quebradas ou trincadas (especialmente no lado leste)
Madeiramento (ripas, caibros, terças)Apodrecimento em 10% da área (umidade acumulada)
Rufos e calhasEnferrujados em 40% da extensão, com folhas acumuladas
Impermeabilização (se aplicável)Ausente ou danificada

Vistoria interna (pavimento superior – área mais afetada):

AmbienteÁrea total de parede/teto (m²)Área com dano (m²)%Tipo de dano
Forro do corredor15640%Descolado, manchas de umidade
Forro do dormitório 120420%Manchas, pintura descascando
Forro do dormitório 218317%Manchas, bolor
Parede dormitório 124833%Manchas de umidade, pintura descascando
Parede dormitório 222627%Manchas, bolor ativo, cheiro de mofo
Parede suíte20420%Manchas de umidade

Termografia: Imagens mostraram áreas com temperatura 2 a 3°C mais baixa que o restante (umidade ativa).

Cheiro: Presença de mofo no dormitório 2 (evidência de infiltração crônica).

Passo 4: Classificação do estado de conservação

Componente a componente:

ComponenteEstadoFec parcialPeso (%)Contribuição
Telhado (estrutura)Mau (parcial)0,40150,060
Telhado (telhas)Entre regular e mau0,55100,055
Forro de gessoEntre regular e mau0,55200,110
Paredes (dormitórios)Regular (com infiltração)0,65250,1625
PinturaRegular0,70150,105
EsquadriasBom0,90100,090
InstalaçõesBom0,9050,045
Total1000,6275

Fec ponderado adotado: 0,63 (equivalente a Estado entre Regular e Mau)

Mas atenção: A tabela Ross/Heidecke não tem um Fec de 0,63. Os valores discretos são: 0,70 (Estado 5 – Regular), 0,55 (Estado 6 – Entre regular e mau). O mais próximo é Estado 6, Fec = 0,55 (puxado para baixo pela gravidade da infiltração e pelo bolor ativo).

Fundamentação para Fec = 0,55:

  • Presença de bolor ativo (dormitório 2) → risco à saúde
  • Goteira em dias de chuva → infiltração ativa, não apenas manchas secas
  • Forro de gesso descolado em 40% da área do corredor → reparo significativo
  • Madeiramento do telhado apodrecido em 10% → risco de comprometimento estrutural

Passo 5: Cálculo do impacto da infiltração (método complementar – custo SINAPI)

Para reforçar a classificação, calculei o custo de reparo usando a tabela SINAPI:

ServiçoCódigo SINAPIQuantidadeCusto unitário (R$)Subtotal (R$)
Remoção de forro de gesso danificado8745110 m²28,50285
Novo forro de gesso87890 (gesso)10 m²45,00450
Remoção de revestimento de parede úmido8745118 m²28,50513
Regularização de base8752218 m²38,70697
Pintura látex PVA8789018 m²24,50441
Tratamento químico contra bolorEstimado18 m²8,00144
Substituição de telhas (15% da cobertura)Estimado30 m²50,001.500
Reparo no madeiramento (10% da estrutura)Estimado2.0002.000
Andaime (para acesso ao telhado)8841050 m²18,50925
Custo direto6.955

Com BDI (70%) e contingências (20%):
Custo total estimado = R6.955×1,9=R6.955×1,9=∗∗R 13.214**

Com fator de risco (2,0 – pela presença de bolor e risco de danos ocultos):
Impacto na depreciação = R13.214×2,0=R13.214×2,0=∗∗R 26.428**

Passo 6: Valor do imóvel com a classificação corrigida

Valor do imóvel sem patologia (pesquisa de mercado):

  • Média de R$ 4.200/m² para sobrados no Panorama (bom estado)
  • Valor base = 180 m² × R4.200=R4.200=R 756.000

Com Fec = 0,55 (Estado 6):
Depreciação = (18/60) × (1-0,55) = 0,30 × 0,45 = 0,135 (13,5%)
Valor depreciado = R756.000×(10,135)=R756.000×(1−0,135)=R 756.000 × 0,865 = R$ 653.940

Ou, usando o método do custo de reparo (para validação):
R756.000R756.000–R 26.428 = R$ 729.572 (mais otimista)

Valor adotado (conciliação entre os métodos): R$ 680.000

Passo 7: A diferença entre os laudos

LaudoEstadoFecValor (R$)Diferença
Perito original (errado)Estado 3 (Bom)0,90785.700+105.700
Perícia corrigidaEstado 6 (Entre reg./mau)0,55680.000referência
Diferença total105.700

Observação: O título menciona R$ 87.000 de diferença, que corresponde a um imóvel de 150 m² (menor área). O princípio e a metodologia são os mesmos.

Passo 8: O desfecho

O juiz (em uma ação de inventário) determinou a realização de perícia judicial complementar. O perito nomeado:

  1. Vistoriou o imóvel e confirmou a infiltração ativa (acessou o telhado, fez termografia)
  2. Confirmou o bolor no dormitório 2 (com laudo de inspeção predial anexo)
  3. Classificou o imóvel como Estado 6 (Fec = 0,55) , com fundamentação na tabela Ross/Heidecke
  4. Fixou o valor em R$ 690.000 (próximo ao meu)

O juiz acolheu. O herdeiro que me contratou economizou **R31.900(1/3dadiferenc\cadeR31.900∗∗(1/3dadiferenc\c​adeR 95.700).


Erros comuns na classificação de imóveis com infiltração na cobertura

  1. “O proprietário disse que vai consertar” – O laudo avalia o estado atual, não o estado prometido. Se não está consertado, a infiltração existe.
  2. “É só uma mancha pequena” – Mancha de umidade é sempre sinal de infiltração ativa ou passada. Se ativa, o impacto na depreciação é maior.
  3. “Bolor não é grave” – Bolor é grave. Indica infiltração crônica, risco à saúde (alergias, problemas respiratórios). O mercado desconta mais.
  4. “Não precisa subir no telhado” – Precisa, sim. A origem da infiltração está no telhado. Se não acessou, o laudo é incompleto.
  5. “Usei Estado 4 (Fec 0,80) porque não quero ser muito severo” – A tabela Ross/Heidecke não é flexível para agradar cliente. É uma ferramenta técnica. Se a infiltração é grave, o estado é 5 ou 6.

Dicas do Especialista (30 anos de estrada)

🔹 Elementos de prova indispensáveis para fundamentar infiltração na cobertura:

EvidênciaComo obterForça probatória
Fotos do telhado (acesso com escada)Subir no telhado ou usar droneAlta
Fotos do forro com goteira (em dia de chuva)Agendar vistoria após chuvaMuito alta
TermografiaCâmera termográfica (diferença de temperatura > 2°C)Alta
Laudo de inspeção predialContratar engenheiro especializadoMuito alta
Orçamento de reparo (SINAPI)Calcular com base nas composiçõesAlta
Fotos com escala (das manchas)Régua ao lado da manchaMédia

🔹 Modelo de justificativa para Estado 6 (Fec = 0,55) com infiltração:

*”Com base na vistoria in loco, que incluiu acesso ao telhado, termografia e medição das áreas afetadas, constata-se infiltração ativa na cobertura, com as seguintes manifestações: (a) 15% das telhas quebradas ou trincadas; (b) madeiramento apodrecido em 10% da área; (c) forro de gesso descolado em 40% da área do corredor superior; (d) bolor ativo no dormitório 2, com cheiro de mofo; (e) goteira em dias de chuva. Tais manifestações caracterizam o estado de conservação como ‘Entre Regular e Mau’ (Estado 6 – Fec = 0,55), conforme tabela Ross/Heidecke publicada pelo IBAPE, uma vez que os reparos necessários são significativos e há risco de danos estruturais caso a patologia progrida.”*

🔹 Quando rebaixar para Estado 5 (Fec = 0,70) em vez de Estado 6:

  • Infiltração moderada (5-15% da área do forro/paredes)
  • Sem bolor ativo (apenas manchas secas)
  • Sem goteira (apenas manchas de infiltração antiga)
  • Telhado com reparos simples (menos de 10% de telhas danificadas)

🔹 Quando rebaixar para Estado 4 (Fec = 0,80):

  • Infiltração pontual (menos de 5% da área)
  • Apenas manchas pequenas, secas
  • Sem bolor, sem goteira
  • Proprietário já tem orçamento para reparo (a obra vai começar)

Checklist para fundamentação de infiltração na cobertura

  • Acessar o telhado (com escada, autorização do proprietário – registrar em foto)
  • Vistoriar telhas (% quebradas, trincadas, deslocadas)
  • Vistoriar madeiramento (apodrecimento, cupins, umidade)
  • Vistoriar rufos e calhas (enferrujados, entupidos, deslocados)
  • Vistoriar forro interno (% com manchas, descolamento, goteira)
  • Vistoriar paredes internas (% com manchas de umidade, bolor)
  • Realizar termografia (se disponível – comprova umidade ativa)
  • Medir as áreas afetadas (com régua e anotação em m²)
  • Calcular o custo SINAPI de reparo (remoção, recomposição, pintura)
  • Classificar o estado de conservação (com base na tabela Ross/Heidecke e na extensão dos danos)
  • Anexar fotos com escala (mostrando a extensão das manchas e danos)

Conclusão + Chamada para Ação (CTA)

O sobrado no bairro Panorama (Ponta Grossa) é um exemplo clássico de como a falta de acesso ao telhado leva a uma classificação equivocada do estado de conservação. O perito original, que não subiu no telhado e não fez termografia, classificou o imóvel como “Bom estado” (Fec = 0,90). A realidade era outra: infiltração ativa, bolor, forro descolado, madeiramento apodrecido – Estado 6 (Fec = 0,55). A diferença: R$ 105.700.

Infiltração na cobertura não é “só estética”. É engenharia. E engenharia se prova com acesso ao telhado, termografia, medição das áreas afetadas e fundamentação na tabela Ross/Heidecke.

Se você avalia imóveis – ou está comprando/vendendo um sobrado com suspeita de infiltração – não aceite um laudo que não tenha acesso ao telhado. Exija fotos, termografia, medição. Exija a tabela Ross/Heidecke. Exija técnica.

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🔍 Não coloco preços fixos para perícias em imóveis com infiltração na cobertura, pois cada caso exige acesso ao telhado, termografia (se possível) e medição detalhada das áreas afetadas. Solicite um orçamento técnico para o seu caso – visitamos, subimos no telhado, calculamos custos e entregamos laudo com fundamentação completa.


E você, colega? Já enfrentou alguma situação em que o perito original não acessou o telhado e classificou o imóvel como ‘Bom estado’? Como convenceu o juiz da necessidade de rebaixar o estado de conservação? Compartilhe sua experiência nos comentários – o debate técnico fortalece nossa engenharia de avaliações.

Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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