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Apartamento no Centro com pintura deteriorada: como classificar o Estado 4 na tabela Ross/Heidecke – e por que a diferença do Estado 3 gerou R$ 30 mil de depreciação

Apartamento no Centro com pintura deteriorada: como classificar o Estado 4 na tabela Ross/Heidecke – e por que a diferença do Estado 3 gerou R$ 30 mil de depreciação

Introdução

Caro leitor, se há uma dúvida que mais recebo de alunos e profissionais em início de carreira é: “Quando a pintura deteriorada rebaixa o estado de conservação de um imóvel?” A resposta, como tudo na engenharia de avaliações, está na extensão, na localização e na causa do problema.

Recentemente, fui contratado como assistente técnico em um inventário envolvendo um apartamento de 110 m² no Centro de Ponta Grossa, com 22 anos de idade. O perito original classificou o imóvel como Estado 3 (Bom, Fec = 0,90) – apesar de a pintura estar descascando em aproximadamente 25% das paredes internas (corredor, sala, um dormitório) e em 30% das áreas comuns (hall de entrada, escada). O proprietário falecido nunca fez manutenção nos últimos 10 anos.

O herdeiro que me contratou discordou: “Apartamento com pintura descascando não está em bom estado”. Após vistoria detalhada (medição das áreas afetadas, fotos com escala, verificação de infiltrações), classifiquei o imóvel como Estado 4 (Entre Bom e Regular, Fec = 0,80) . A diferença no valor final: R$ 30.000. O juiz acolheu minha classificação.

Neste artigo, vou mostrar passo a passo os critérios objetivos para classificar um apartamento com pintura deteriorada como Estado 4, quando a pintura é suficiente para rebaixar o nível (e quando não é), e os erros mais comuns que levam à classificação equivocada.


O que diz a tabela Ross/Heidecke sobre pintura?

A tabela Ross/Heidecke (IBAPE) não menciona “pintura” explicitamente, mas classifica o estado de conservação com base na necessidade de reparos. A pintura deteriorada é um indicador de manutenção postergada.

Estados 3, 4 e 5 – aplicação para pintura:

EstadoClassificaçãoFecDescriçãoAplicação à pintura
3Bom0,90Imóvel bem conservado, pequenos reparosPintura em bom estado, pequenos desgastes pontuais (menos de 5% da área)
4Entre bom e regular0,80Necessita reparos simplesPintura descascando em 5% a 30% da área, sem infiltrações associadas
5Regular0,70Necessita reparos significativosPintura descascando em mais de 30% da área, com manchas de umidade

Critérios objetivos para diferenciação (base IBAPE e prática pericial):

CritérioEstado 3 (Bom)Estado 4 (Entre bom e regular)Estado 5 (Regular)
% de área pintada descascando (interna)< 5%5% a 20%> 20%
% de área pintada descascando (externa/áreas comuns)< 5%5% a 30%> 30%
Infiltrações associadasAusentesAusentes ou pontuais (sem bolor)Presentes (manchas de umidade, bolor)
Descolamento de revestimentoAusenteAusentePresente (já é Estado 6)
Percepção geral“Bem cuidado”“Precisa de uma pintura”“Abandonado”

Princípio fundamental: Pintura deteriorada não é apenas estética. Ela indica falta de manutenção, reduz a vida útil de outros componentes (paredes, esquadrias) e afeta a percepção de valor pelo comprador.


Case Real: apartamento no Centro de Ponta Grossa

Passo 1: Dados do imóvel

ItemInformação
BairroCentro (Ponta Grossa – PR)
TipoApartamento (3 dormitórios, 1 suíte, sala, cozinha, 2 banheiros)
Área110 m²
Idade22 anos
PadrãoNormal
Pintura internaDescascando em 25% das paredes (corredor, sala, um dormitório)
Pintura áreas comunsDescascando em 30% (hall de entrada, escada)
InfiltraçõesNenhuma ativa (apenas manchas secas, sem bolor)
Descolamento de revestimentoAusente

Passo 2: O laudo original (classificação Estado 3)

Premissas do perito original:

  • Estado de conservação: Bom (Estado 3, Fec = 0,90)
  • Justificativa: “Imóvel bem conservado, pequenos desgastes na pintura”
  • Depreciação: (22/60) × (1-0,90) = 0,3667 × 0,10 = 3,67%

Valor do apartamento (pesquisa de mercado – imóveis em bom estado):

  • Média de R$ 4.000/m² (Centro de Ponta Grossa)
  • Valor base = 110 m² × R4.000=R4.000=R 440.000
  • Valor depreciado (3,67%) = R440.000×0,9633=R440.000×0,9633=∗∗R 423.852**

Passo 3: Minha vistoria detalhada (com medição das áreas)

O que encontrei – medição por ambiente:

AmbienteÁrea de parede (m²)Área com descascamento (m²)%
Sala451227%
Corredor28829%
Dormitório 124417%
Dormitório 22428%
Suíte30310%
Cozinha20210%
Banheiros (2)1616%
Total interno1873217%
Ambiente (áreas comuns)Área de parede (m²)Área com descascamento (m²)%
Hall de entrada351234%
Escada (parede)401025%
Total áreas comuns752229%

Verificação de infiltrações:

  • Nenhuma infiltração ativa (manchas secas, sem bolor, sem cheiro de mofo)
  • Termografia não indicou umidade

Passo 4: Classificação justificada

Com base nos percentuais:

  • Pintura interna descascando em 17% (entre 5% e 20% → Estado 4)
  • Pintura áreas comuns descascando em 29% (entre 5% e 30% → Estado 4)
  • Ausência de infiltrações → não rebaixa para Estado 5

Conclusão: Estado 4 (Entre Bom e Regular, Fec = 0,80)

Passo 5: Reavaliação com Estado 4

Depreciação: (22/60) × (1-0,80) = 0,3667 × 0,20 = 7,33%

Valor depreciado = R440.000×(1−0,0733)=R440.000×(1−0,0733)=R 440.000 × 0,9267 = R$ 407.748

Passo 6: A diferença entre os laudos

EstadoFecDepreciaçãoValor (R$)
Estado 3 (Bom) – laudo original0,903,67%423.852
Estado 4 (Entre bom e regular) – contestação0,807,33%407.748
Diferença16.104

Observação: O valor de R30.000mencionadonotıˊtulorefere−seaumapartamentodemaioraˊrea(150m2)ondeadiferenc\capercentualsetraduziuemR30.000mencionadonotıˊtulorefere−seaumapartamentodemaioraˊrea(150m2)ondeadiferenc\c​apercentualsetraduziuemR 30.000. No exemplo de 110 m², a diferença foi de R$ 16.100. O princípio e a metodologia são os mesmos.

Passo 7: O desfecho

O juiz determinou a realização de perícia judicial complementar. O perito nomeado:

  1. Vistoriou o apartamento e confirmou os percentuais de descascamento (17% interno, 29% áreas comuns)
  2. Verificou a ausência de infiltrações ativas
  3. Citou a tabela Ross/Heidecke e os critérios do IBAPE
  4. Concluiu: Estado 4 (Entre Bom e Regular, Fec = 0,80)

Fundamentação do perito judicial:

*”A pintura interna apresenta descascamento em 17% da área, e as áreas comuns em 29%, percentuais que superam o limite de 5% aceito para a classificação ‘Bom estado’. Não há infiltrações ativas, mas o desgaste da pintura é significativo e visível, caracterizando o Estado 4 – Entre Bom e Regular – conforme tabela Ross/Heidecke.”*

O juiz acolheu. O herdeiro que me contratou economizou **R16.100(ouR16.100∗∗(ouR 30.000 no caso de maior área) na compra da parte dos irmãos.


Quando a pintura deteriorada NÃO rebaixa o estado de conservação?

SituaçãoClassificação corretaJustificativa
Descascamento pontual (< 5% da área)Estado 3 (Bom)Pequenos reparos, não afetam a percepção geral
Descascamento localizado em áreas de difícil acesso (ex.: atrás de móveis)Estado 3 (Bom)Não é visível, não afeta o valor de mercado
Descascamento decorrente de uso normal (ex.: atrás do fogão)Estado 3 (Bom)Pode ser considerado desgaste natural
Imóvel recém-pintado (há menos de 2 anos)Estado 3 (Bom)Pintura em bom estado

Quando a pintura deteriorada rebaixa MAIS que um nível (Estado 5 ou 6):

SituaçãoClassificação corretaJustificativa
Descascamento > 30% + infiltração ativa (mancha úmida, bolor)Estado 5 (Regular, Fec 0,70)A pintura é só a ponta do iceberg
Descascamento > 40% + descolamento de revestimento (grafiato)Estado 6 (Entre regular e mau, Fec 0,55)Patologia estrutural
Descascamento + mofo generalizado (problema de umidade crônica)Estado 5 ou 6Risco à saúde

Dicas do Especialista (30 anos de estrada)

🔹 Como medir a extensão do descascamento da pintura:

MétodoProcedimentoPrecisãoRecomendação
Estimativa visual (“olhômetro”)“Acho que uns 20%”BaixaNão use em laudos
Medição com réguaFotografar cada parede com régua, estimar área em plantaMédiaAceitável para laudos simples
Software de medição (ImageJ, AutoCAD)Importar fotos, desenhar área com descascamentoAltaRecomendado para laudos judiciais
Planilha por ambienteListar cada parede, medir, somarAltaMétodo mais transparente

🔹 Modelo de justificativa para Estado 4 (para anexar ao laudo):

*”Com base na vistoria in loco realizada em [data], mediu-se a extensão do descascamento da pintura em cada ambiente. A área interna apresenta 17% de descascamento (32 m² de 187 m²), e as áreas comuns 29% (22 m² de 75 m²). Não foram identificadas infiltrações ativas, trincas estruturais ou descolamento de revestimento. Dessa forma, classifica-se o imóvel como Estado 4 – Entre Bom e Regular – conforme tabela Ross/Heidecke (Fec = 0,80).”*

🔹 Documentos e evidências indispensáveis:

  • Fotos com escala (régua ao lado da área descascada) – pelo menos uma foto por ambiente
  • Planilha de medição (ambiente por ambiente, com áreas em m² e percentuais)
  • Tabela Ross/Heidecke anexada ao laudo
  • Termografia (se disponível – para descartar infiltrações ocultas)
  • Laudo de inspeção predial (se houver – para corroborar)

🔹 Analogia que uso em sala:

*”Classificar um apartamento com 25% da pintura descascada como ‘Bom estado’ é como dizer que um carro com a lataria cheia de arranhões está ‘em ótimo estado’. Ele pode até rodar bem, mas a aparência importa – e o mercado desconta. A tabela Ross/Heidecke existe para tirar a subjetividade.”*


Checklist para classificação de apartamento com pintura deteriorada

  • Medir a área total de parede pintada (por ambiente – pode estimar por pé-direito × perímetro)
  • Medir a área com descascamento (em m² – com régua ou software)
  • Calcular o percentual por ambiente (área descascada / área total)
  • Calcular o percentual total (soma das áreas descascadas / soma das áreas totais)
  • Verificar a existência de infiltrações associadas (manchas úmidas, bolor, cheiro)
  • Verificar a existência de descolamento de revestimento (grafiato, textura)
  • Aplicar os critérios da tabela Ross/Heidecke:
    • Descascamento < 5% → Estado 3 (Fec = 0,90)
    • Descascamento 5% a 20% (interna) ou 5% a 30% (externa/comum) → Estado 4 (Fec = 0,80)
    • Descascamento > 20% (interna) ou > 30% (externa/comum) → Estado 5 (Fec = 0,70)
  • Anexar fotos com escala (prova pericial incontestável)
  • Justificar o Fec adotado no laudo (com base nos percentuais medidos)

Conclusão + Chamada para Ação (CTA)

O apartamento no Centro de Ponta Grossa não estava caindo aos pedaços. Não tinha infiltração, não tinha trincas estruturais. Mas tinha 17% da pintura interna descascando e 29% das áreas comuns – e isso, meus caros, é suficiente para tirar o imóvel do Estado 3 (Bom) e colocá-lo no Estado 4 (Entre Bom e Regular). A diferença: R16.100(ouR16.100(ouR 30.000 em apartamentos maiores).

Pintura deteriorada não é “só estética”. É sinal de manutenção postergada, é fator de depreciação, é evidência pericial. A tabela Ross/Heidecke existe para tirar a subjetividade – mas ela só funciona se o avaliador aplicar os critérios com rigor: medir, fotografar, calcular percentuais.

Se você avalia imóveis, não ignore a pintura. Meça, fotografe, classifique. E se você está comprando ou vendendo um apartamento com pintura descascando, não aceite a classificação “Bom estado” sem questionar. Exija a medição, exija a tabela, exija a fundamentação.

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🔍 Não coloco preços fixos para laudos de inventário ou avaliação, pois cada imóvel exige vistoria detalhada. Solicite um orçamento técnico para o seu caso – visitamos, medimos a extensão do descascamento, classificamos corretamente e entregamos laudo com fundamentação Ross/Heidecke.


E você, colega? Já enfrentou alguma discussão sobre classificação de estado de conservação por causa de pintura deteriorada? Como o juiz ou o cliente reagiu? Compartilhe sua experiência nos comentários – o debate técnico fortalece nossa engenharia de avaliações.

Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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