Com mais de 15 anos de experiência, a Esatto Avaliações auxilia pessoas e empresas a atingirem seus objetivos financeiros e imobiliários, oferecendo serviços de avaliação precisos e transparentes.

Galeria

Contato

contato@esattoavaliacoes.com.br

41 99169-9464

Avaliação
Laudo original usou padrão Normal em casa simples: contestei e reduzi R$ 315 mil – um alerta sobre enquadramento construtivo

Laudo original usou padrão Normal em casa simples: contestei e reduzi R$ 315 mil – um alerta sobre enquadramento construtivo

Introdução

Caro leitor, ao longo de três décadas avaliando imóveis, uma das falhas técnicas mais frequentes – e mais caras – que encontro em laudos de terceiros é o superenquadramento do padrão construtivo. E não estou falando de erro bobo. Estou falando de distorções que ultrapassam facilmente R200mil,R200mil,R 300 mil, como no caso que vou relatar agora.

Recentemente fui contratado como assistente técnico para contestar um laudo de avaliação judicial. O perito de primeira instância havia avaliado uma casa de 220 m² em bairro de classe média, enquadrando-a como padrão Normal (tabela IBAPE). O valor atribuído: R$ 1,2 milhão.

Após vistoria minuciosa e aplicação rigorosa dos critérios da NBR 12721 e das tabelas de padrão do IBAPE, reclassifiquei a casa como padrão Simples. O resultado final? Redução de R$ 315 mil no valor de mercado, aceita pelo juiz e pelas partes.

Neste artigo, vou mostrar exatamente como enquadrar um imóvel sem erro, os itens que você não pode ignorar e por que padrão não é “achismo” – é engenharia.


Objetivo da Avaliação: por que o padrão construtivo importa tanto?

Em qualquer laudo pelo Método Comparativo Direto de Dados de Mercado (NBR 14653-2), o padrão construtivo é um dos fatores de homogeneização mais relevantes. Um erro aqui contamina todo o tratamento por fatores.

No caso que contestei, a avaliação original tinha como objetivo indenização por desapropriação indireta. Ou seja, um valor elevado beneficiaria o proprietário, mas prejudicaria o erário público. A justiça precisava de precisão.

Pergunta que todo avaliador deve fazer:

Este imóvel, se fosse construído hoje pelo mercado local, seria anunciado como “padrão Normal” ou “padrão Simples”?

A resposta não está na opinião do proprietário. Está nos materiais, nos acabamentos, nas instalações.


Métodos Técnicos: como classificar pad rão construtivo segundo IBAPE/ABNT

A NBR 14653-2 não dá uma tabela pronta de padrões, mas remete às práticas do mercado e às publicações técnicas do IBAPE. A mais usada é a Tabela IBAPE de Padrões Construtivos, que define:

PadrãoCaracterísticas mínimas
AltoProjeto arquitetônico diferenciado, materiais nobres (granito, madeira de lei, louças de primeira linha), instalações completas (ar condicionado central, piso radiante, etc.)
NormalAcabamento completo com materiais de boa qualidade (cerâmica esmaltada, louças brancas padrão, metais cromados, esquadrias de alumínio ou madeira de boa qualidade), área de serviço e dependências completas
SimplesAcabamento básico (piso cerâmico ou cimentado, louças simples, metais econômicos, esquadrias de ferro ou alumínio fino), pode ter dependência incompleta (ex.: sem área de serviço coberta)
Rústico/ProvisórioAcabamento incompleto ou com materiais alternativos

O que o laudo original fez de errado?

O perito original classificou como Normal baseado em:

  • Idade do imóvel (10 anos)
  • Presença de 3 suítes
  • Área de lazer com piscina

O que eu constatei na vistoria (e ele não):

ItemClassificação Normal (exigido)Casa avaliadaConclusão
PisoCerâmica esmaltada de 1ª linhaCerâmica simples (2ª linha, com desníveis)Abaixo do Normal
LouçasLinha completa (inclusive bidê)Somente vaso e lavatório, marcas econômicasAbaixo do Normal
MetaisCromados, com registro de pressãoPlástico cromado, registro de gaveta simplesAbaixo do Normal
EsquadriasAlumínio anodizado ou madeira de leiAlumínio fino (frio) com trilhos desgastadosAbaixo do Normal
Área de serviçoCoberta, com tanque e ponto de máquinaDescoberta, sem tanqueAbaixo do Normal
Pé-direito2,70 m mínimo2,60 m em alguns ambientesAbaixo do Normal

Resultado: 6 itens abaixo do mínimo exigido para Normal → reclassificação para Simples.


Case Real: os números da contestação

Dados de mercado (5 imóveis similares em bairro próximo):

ReferênciaPadrão adotadoValor (R$)Valor/m² (R$)
Ref. 1Normal1.250.0005.682
Ref. 2Normal1.180.0005.364
Ref. 3Simples890.0004.045
Ref. 4Simples935.0004.250
Ref. 5Simples870.0003.954

O laudo original usou apenas Ref. 1 e 2 (padrão Normal) e aplicou um “abatimento subjetivo” de 10% por diferenças – erro gravíssimo. Não se pode homogeneizar um imóvel Simples a partir de referências Normais sem transformar o padrão por fatores, o que é complexo e raramente bem feito.

Minha abordagem correta:

  1. Selecionei 3 referências de padrão Simples (Ref. 3, 4 e 5).
  2. Homogeneizei por fatores de área, estado de conservação e localização (Ftransf).
  3. Valor médio homogeneizado das Simples: R$ 4.083,00/m².
  4. Valor do avaliando (220 m² × 4.083): R$ 898.260,00.

Diferença: R1.200.000R1.200.000–R 898.260 = **R301.740,00(aproximadamenteR301.740,00∗∗(aproximadamenteR 315 mil com os adicionais de benfeitorias externas).

O juiz acolheu integralmente o meu laudo.


Desafios comuns (por que tantos erros de enquadramento?)

  1. Avaliar por fotos: O perito original sequer entrou no imóvel. Usou fotos aéreas e imagens externas. Impossível identificar que a cerâmica era de 2ª linha.
  2. Superestimar pelo desejo de agradar: Em ações judiciais, peritos nomeados às vezes “puxam” o padrão para agradar a parte que os indicou. Isso é antiético e tecnicamente reprovável.
  3. Desconhecer a tabela IBAPE: Muitos avaliadores nunca leram a publicação “Padrões Construtivos – IBAPE Nacional” (2019). Trabalham com “senso comum”.
  4. Idade não define padrão: Um imóvel de 50 anos pode ter sido Alto em sua época, mas hoje está obsoleto. Padrão é avaliado no estado atual, não no original.

Dicas do Especialista (para nunca mais errar)

🔹 Roteiro de vistoria para enquadramento de padrão:

  • Pisos: Tipo (cerâmica, porcelanato, taco, cimentado) e qualidade (1ª/2ª linha, regularidade, rejuntamento).
  • Paredes: Reboco pintado, textura, gesso, papel de parede? Há trincas ou umidade?
  • Louças e metais: Marcas (Deca, Lorenzetti, ou genéricas?). Estado de conservação.
  • Esquadrias: Material (alumínio, ferro, madeira, PVC). Vedação. Vidros (simples, duplo, temperado).
  • Cobertura: Telha cerâmica, fibrocimento, metálica, laje. Estado de conservação.
  • Instalações elétricas: Disjuntores, fiação aparente/embutida, número de tomadas por ambiente.
  • Área de serviço: Coberta? Tanque? Ponto de máquina? Varal?
  • Dependências completas: Suíte, lavabo, despensa, escritório – ou apenas o básico?

🔹 Fontes confiáveis para referência de padrão:

  • IBAPE Nacional – publicação “Padrões Construtivos para Avaliações” (disponível para associados).
  • Tabelas de custo unitário básico (CUB) – a descrição dos padrões na NBR 12721 ajuda na classificação.
  • Acervo técnico do CREA – muitas vezes você encontra projetos similares para comparar especificações.

🔹 Analogia que uso em sala de aula:

“Classificar um imóvel padrão Normal sem piso de qualidade é como dizer que um carro popular é de luxo só porque tem ar-condicionado. O conjunto define o padrão, não um item isolado.”


Checklist para contestação de laudo com suspeita de superenquadramento

Se você recebe um laudo e suspeita de padrão inflado:

  • Verifique se o laudo descreve todos os acabamentos (não apenas “padrão Normal”).
  • Compare a descrição com a tabela IBAPE – há itens faltando?
  • Veja se o perito usou referências de mesmo padrão que o avaliando (ou se usou padrão superior com “abatimentos subjetivos”).
  • Solicite fotos internas da vistoria. Se não houver, o laudo é nulo por falta de fundamentação (NBR 14653-2, item 9.2.1).
  • Faça uma vistoria assistida – você tem o direito de verificar in loco.

Conclusão + Chamada para Ação (CTA)

A casa em questão, avaliada originalmente em R1,2milha~o,teveseuvalorcorrigidoparapoucomenosdeR1,2milha~o,teveseuvalorcorrigidoparapoucomenosdeR 900 mil. Uma diferença de R$ 315 mil que saiu do bolso do erário público (ou entrou indevidamente no do proprietário, dependendo do lado). Isso não é detalhe – é o equivalente a um carro zero ou a uma pequena reforma completa.

A lição é clara: padrão construtivo não é impressão. É vistoria, é tabela, é coerência de mercado.

Se você atua com avaliações – seja para financiamento, judicial, partilha ou compra e venda – nunca subestime o poder de um enquadramento equivocado. Ele pode custar caro para o seu cliente… ou para a sua reputação.

📥 Baixe agora o nosso modelo de planilha de enquadramento de padrão construtivo, baseada na tabela IBAPE e na NBR 12721. Inclui checklists por ambiente e cálculo de fator de homogeneização.

🔍 Não coloco preços padronizados porque cada contestação exige profundidade diferente. Solicite um orçamento técnico para o seu caso específico – analisamos laudos originais e emitimos parecer com fundamentação normativa.


E você, colega? Já encontrou algum laudo com padrão claramente superestimado? Como conduziu a contestação? Compartilhe sua experiência nos comentários – o conhecimento técnico se fortalece quando debatido entre pares.

Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *