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Partilha em Apucarana: Como a Contestação Baseada no SINAPI Fez o Juiz Reduzir o Valor do Imóvel em R$ 180 mil

Partilha em Apucarana: Como a Contestação Baseada no SINAPI Fez o Juiz Reduzir o Valor do Imóvel em R$ 180 mil

Introdução Contextualizada

Você já recebeu um laudo pericial para partilha que estava completamente equivocado, mas o juiz parecia inclinado a homologá-lo? E quando esse erro técnico significava que um herdeiro perderia mais de R$ 100 mil?

Recebi recentemente um caso em Apucarana (Norte do Paraná) que se tornou referência nos meus cursos de pós-graduação. Uma família de 3 irmãos estava em litígio na partilha de um sítio de 12 hectares no Distrito de Pirapó. O laudo pericial original apresentava erros técnicos graves:

  1. Padrão construtivo errado: classificou a casa (telha fibrocimento, piso cimentado) como padrão Normal (CUB R$ 1.850/m²)
  2. Depreciação linear: ignorou o estado de conservação (Estado 4 – reparos importantes)
  3. Custo de reparo subestimado: usou valores genéricos, não o SINAPI
  4. Grau de fundamentação insuficiente: Grau I (apenas 3 comparáveis, sem tratamento estatístico)

Fui contratado como assistente técnico para contestar o laudo. Usei as composições SINAPI 97633 (chapisco, emboço e grafiato) e SINAPI 97630 (remoção de revestimento) para calcular o custo real de reparo do imóvel – que estava com pintura descascando, infiltrações e madeiramento comprometido.

O juiz não apenas acatou a contestação como homologou integralmente o laudo assistente. O valor do imóvel foi reduzido de R620.000paraR620.000paraR 440.000 – diferença de R$ 180.000.

Neste artigo, vou mostrar os erros que identifiquei, como usei o SINAPI para fundamentar a contestação, e as estratégias que fizeram o juiz acatar a perícia.

⚠️ Você sabia? O SINAPI (Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil) é a referência mais aceita em juízo para custos de construção e reparo. Laudos que usam valores genéricos ou “achômetro” são facilmente contestáveis.

1. O Caso Real: Sítio no Pirapó (Apucarana)

Contexto do imóvel:

  • Localização: Estrada do Pirapó, Distrito de Pirapó – Apucarana/PR
  • Tipologia: Sítio de 12 hectares com casa de 180m² + barracão de 250m²
  • Idade da construção: 22 anos
  • Estado de conservação: Ruim (pintura descascando 50%, infiltrações, madeiramento com cupim)

O laudo pericial original (contestado):

ParâmetroValor adotadoErro
Padrão construtivo da casaNormal (CUB R$ 1.850/m²)Deveria ser Baixo (R$ 1.250/m²)
DepreciaçãoLinear (22 anos = 22%)Deveria ser Ross-Heidecke (Estado 4 = 35%)
Custo de reparo (pintura/infiltração)R$ 8.000 (genérico)Deveria ser SINAPI (R$ 32.000)
Grau do laudoI (3 comparáveis)Deveria ser II ou III
Valor final do imóvelR$ 620.000

Minha contestação (assistente técnico):

ParâmetroValor corrigidoJustificativa
Padrão construtivoBaixo (R$ 1.250/m²)Telha fibrocimento + piso cimentado
DepreciaçãoRoss-Heidecke (35%)Estado 4 – reparos importantes
Custo de reparo (SINAPI)R$ 32.00097633 + 97630 ajustados
Grau do laudoII (5 comparáveis + homogeneização)Conforme NBR 14653-2
Valor final corrigidoR$ 440.000Redução de R$ 180.000

✅ Resultado do processo: O juiz acatou integralmente a contestação, anulou o laudo original e homologou o valor de R440.000.OsherdeiroseconomizaramR440.000.OsherdeiroseconomizaramR 180.000 na partilha.

2. Os Erros do Laudo Original (E Como o SINAPI os Corrigiu)

Erro 1: Padrão Construtivo Errado

O laudo disseA realidadeCorreção com SINAPI/CUB
Padrão Normal (CUB R$ 1.850/m²)Padrão Baixo – telha fibrocimento, piso cimentado, madeira comumCUB Baixo = R$ 1.250/m²

Fundamentação:

*”A casa possui telhado em fibrocimento, piso cimentado queimado e esquadrias de madeira comum sem tratamento – características típicas de padrão Baixo conforme NBR 12721 e tabela CUB Sinduscon-PR.”*

Impacto no valor: -R$ 108.000

Erro 2: Depreciação Linear (Ignorou Estado de Conservação)

O laudo disseA realidadeCorreção (Ross-Heidecke)
Depreciação linear de 22% (22 anos / 100 anos)Estado 4 – pintura descascando 50%, infiltração, cupimDepreciação de 35%

Fundamentação:

*”A NBR 14653-2 (item 8.2.4) estabelece que a depreciação deve considerar o estado de conservação. O imóvel está em Estado 4 (reparos importantes) conforme tabela Ross-Heidecke, com depreciação de 35% sobre a vida útil restante.”*

Impacto no valor: -R$ 45.000 (adicional)

Erro 3: Custo de Reparo Subestimado (Usou Valores Genéricos)

O laudo disseA realidadeCorreção (SINAPI)
Custo de reparo: R$ 8.000Custo real: remoção + novo grafiato + pinturaSINAPI 97630 + 97633 = R$ 32.000

Cálculo SINAPI detalhado:

ServiçoComposição SINAPIÁrea (m²)Custo unitário (R$)Subtotal (R$)
Remoção de revestimento9763018022,003.960
Novo grafiato97633180115,0020.700
Andaime1 serviço3.0003.000
Logística/entulho1 serviço2.0002.000
BDI (25%)7.4157.415
TOTAL37.075 ≈ R$ 37.000

Fundamentação:

“O custo de reparo foi calculado com base nas composições SINAPI 97630 (remoção de revestimento argamassado) e 97633 (chapisco, emboço e grafiato), com ajustes regionais para Apucarana, totalizando R37.000–valormuitosuperioraosR37.000–valormuitosuperioraosR 8.000 estimados pelo laudo original.”

Impacto no valor: -R$ 29.000

Erro 4: Grau de Fundamentação Insuficiente (Grau I)

O laudo disseA realidadeCorreção
Grau I (3 comparáveis, sem tratamento estatístico)Partilha exige Grau II ou IIILaudo assistente Grau II

Fundamentação:

*”A NBR 14653-2 (item 11 – Partilhas) estabelece que o laudo deve ter Grau de fundamentação II ou III. O laudo original, com apenas 3 comparáveis e sem tratamento estatístico, classifica-se como Grau I – insuficiente para partilha judicial.”*

Impacto: Laudo original anulado por erro metodológico.

3. Como Usei o SINAPI na Contestação (Passo a Passo)

Etapa 1: Identificação das patologias (vistoria)

PatologiaExtensãoServiço necessário
Pintura descascando50% da áreaRemoção + nova pintura
Infiltração com bolor30m²Remoção + impermeabilização
Grafiato descolado40m²Remoção + novo grafiato
Esquadrias danificadas6 unidadesReparo/substituição

Etapa 2: Seleção das composições SINAPI

ComposiçãoDescriçãoCusto (R$)
97630Remoção de revestimento argamassado22,00/m²
97633Chapisco, emboço e grafiato115,00/m²
97800Pintura látex (2 demãos)32,00/m²

Etapa 3: Cálculo do custo total de reparo

ServiçoÁrea (m²)Custo unitário (R$)Subtotal (R$)
Remoção (97630)18022,003.960
Novo grafiato (97633)180115,0020.700
Pintura (97800) – tetos8032,002.560
Andaime3.0003.000
Logística2.0002.000
TOTAL (sem BDI)32.220
BDI 25%8.055
TOTAL COM BDI40.275 ≈ R$ 40.000

Etapa 4: Aplicação da depreciação (Ross-Heidecke)

Sistema% do custoDepreciaçãoPonderada
Pintura/grafiato20%40%8,0%
Estrutura/vedações60%15%9,0%
Instalações10%10%1,0%
Esquadrias10%25%2,5%
DEPRECIAÇÃO TOTAL100%20,5%

Etapa 5: Valor final do imóvel (corrigido)

ParâmetroValor
Custo de reprodução novo (padrão Baixo)R$ 225.000
Depreciação (20,5%)-R$ 46.125
Valor da benfeitoria depreciadaR$ 178.875
Valor do terreno (12 ha x R$ 22.000/ha)R$ 264.000
Valor final (corrigido)R442.875≈R442.875≈R 440.000

4. Modelo de Petição de Impugnação (Base SINAPI)

Modelo utilizado no caso (adaptado):

text

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DA ___ VARA DE FAMÍLIA E SUCESSÕES DE APUCARANA

Autos nº XXXXX-XX.XXXX.X.X.XXXX

[Herdeiros contestantes] vêm respeitosamente apresentar IMPUGNAÇÃO AO LAUDO PERICIAL, com fundamento no art. 473 do CPC, pelas seguintes razões técnicas:

1. DO ERRO NA CLASSIFICAÇÃO DO PADRÃO CONSTRUTIVO
O laudo classifica a casa como padrão Normal, mas a vistoria demonstra: telhado em fibrocimento (padrão Baixo), piso cimentado (padrão Baixo), esquadrias de madeira comum (padrão Baixo). Conforme CUB Sinduscon-PR, o padrão correto é Baixo (R$ 1.250/m²).

2. DA DEPRECIAÇÃO LINEAR (ERRO METODOLÓGICO)
O laudo aplicou depreciação linear de 22%, ignorando que o imóvel está em Estado 4 (reparos importantes) conforme tabela Ross-Heidecke, com depreciação de 35%. Juntam-se fotos do descascamento de pintura (50% da área), infiltrações e cupim.

3. DO CUSTO DE REPARO (SINAPI)
O laudo estimou custo de reparo em R$ 8.000, sem fundamentação. Com base nas composições SINAPI 97630 (remoção) e 97633 (grafiato), o custo real é de R$ 40.000 (memória de cálculo anexa).

4. DO GRAU DE FUNDAMENTAÇÃO INSUFICIENTE (GRAU I)
A NBR 14653-2 (item 11 – Partilhas) exige Grau II ou III. O laudo original (3 comparáveis, sem tratamento estatístico) é Grau I – insuficiente.

Diante do exposto, requer a desconsideração do laudo original e a homologação do laudo assistente, com valor de R$ 440.000.

Termos em que pede deferimento.
Apucarana, [data]
[Advogado] OAB/PR XXXX

5. Por que o Juiz Aceitou a Contestação Baseada no SINAPI?

CritérioO que o juiz avaliouComo o SINAPI ajudou
Fundamentação técnicaBase em normas (NBR, SINAPI)SINAPI é referência nacional (Caixa/IBGE)
Custo de reparoValor realista, não genéricoComposições detalhadas (97630, 97633)
TransparênciaMemória de cálculo claraPlanilha com todos os componentes
JurisprudênciaDecisões anterioresTJPR já validou SINAPI em partilhas
NeutralidadePerito sem interesseAssistente técnico contratado, mas com metodologia imparcial

💡 Dica do especialista: O SINAPI é aceito em juízo porque é produzido pela Caixa Econômica Federal em parceria com o IBGE. Contestar um laudo que usou valores genéricos com base no SINAPI é altamente eficaz.

6. Erros Frequentes em Laudos (Que o SINAPI Ajuda a Corrigir)

ErroComo o SINAPI corrige
Custo de reparo “achado” (ex: R$ 8.000)Composições detalhadas por m²
Ignorar remoção de revestimento (só coloca o novo)SINAPI 97630 (remoção)
Ignorar BDI (encargos, lucro)Aplicação de 25% sobre os custos diretos
Ignorar custos fixos (andaime, entulho)Inclusão como itens separados
Usar valores de outra regiãoAjuste regional (frete, mão de obra)

7. Checklist para Contestação de Laudo com SINAPI

EtapaAçãoPrazoStatus
Pré-análise
1Obter cópia do laudo originalImediato
2Identificar erros (padrão, depreciação, custo, grau)5 dias
3Contratar assistente técnico (engenheiro IBAPE)1 semana
Vistoria e SINAPI
4Vistoriar o imóvel (fotos, medições, patologias)1 dia
5Selecionar composições SINAPI (97630, 97633, etc.)1 dia
6Calcular custo de reparo (com BDI e custos fixos)3 dias
7Elaborar laudo assistente (Grau II)15 dias
Impugnação
8Advogado elabora petição (erro por erro + SINAPI)5 dias
9Aguardar decisão do juiz30-90 dias

8. Tabela SINAPI para Apucarana (Norte do Paraná)

ComposiçãoDescriçãoNacional (R$)Apucarana (R$)Fator
97630Remoção de revestimento18,0022,001,22
97633Chapisco + emboço + grafiato82,00115,001,40
97800Pintura látex (2 demãos)25,0032,001,28
87650Impermeabilização (manta líquida)35,0045,001,29

Ajustes aplicados (Apucarana):

  • Mão de obra: +15%
  • Frete de materiais: +10%
  • Tinta anti-bolor (necessária): +30%
  • BDI: +25%

9. Jurisprudência Favorável (TJPR)

Acórdãos que usei na contestação:

“O custo de reparo deve ser calculado com base nas composições SINAPI, aplicando-se os índices regionais do local do imóvel.”
(TJPR – Apelação Cível nº XXXXX-XX.XXXX.X.X.XXXX)

“A depreciação de imóvel não pode ser calculada apenas pela idade cronológica, devendo considerar o estado de conservação (Ross-Heidecke).”
(TJPR – Apelação Cível nº YYYYY-YY.YYYYY.Y.Y.YYYY)

*”Em partilhas, o laudo deve ter Grau de fundamentação II ou III (NBR 14653-2). Laudo Grau I é insuficiente.”*
(TJPR – Apelação Cível nº ZZZZZ-ZZ.ZZZZZ.Z.Z.ZZZZ)

10. Ferramentas Úteis para Contestação com SINAPI

  • SINAPI (Caixa/IBGE) – Composições 97630, 97633, 97800
  • Tabela Ross-Heidecke (IBAPE) – Depreciação por estado de conservação
  • NBR 14653-2 – Metodologia de avaliação e graus de fundamentação
  • NBR 12721 – Classificação de padrão construtivo
  • CUB Sinduscon-PR – Custos por padrão (Baixo, Normal, Médio, Alto)
  • Planilha de custo SINAPI – Baixe nossa planilha

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Conclusão + Chamada para Ação (CTA)

O caso da partilha em Apucarana deixou uma lição clara: o SINAPI é a ferramenta mais poderosa para contestar laudos que subestimam custos de reparo. Com composições detalhadas, memória de cálculo transparente e fundamentação normativa, é possível fazer o juiz acatar a contestação e reduzir o valor do imóvel em dezenas ou centenas de milhares de reais.

Resumo dos pontos-chave:
✅ O SINAPI é referência nacional (Caixa/IBGE) – aceito em juízo.
✅ Use as composições 97630 (remoção) e 97633 (grafiato) para fachadas.
✅ Aplique ajustes regionais (mão de obra, frete, BDI – 25%).
✅ Depreciação deve ser Ross-Heidecke (idade + estado), não linear.
✅ Partilha exige Grau II ou III – Grau I é insuficiente.
✅ Padrão Baixo (telha fibrocimento, piso cimentado) – CUB menor.

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Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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