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Laudo Original Superfaturado: Como Contestei na Justiça e Venci com Redução de R$ 280 mil

Laudo Original Superfaturado: Como Contestei na Justiça e Venci com Redução de R$ 280 mil

Introdução Contextualizada

Você já recebeu um laudo pericial para partilha onde o avaliador ignorou completamente o estado de conservação, usou comparáveis de outro bairro mais valorizado e aplicou coeficiente 1,0 para varanda aberta? E quando esse laudo superfaturado significava que um herdeiro pagaria R$ 280 mil a mais do que o valor justo?

Recebi recentemente um caso em Londrina (Norte do Paraná) que se tornou referência nos meus cursos de pós-graduação. Um apartamento de alto padrão no Bairro Jardim Botânico estava sendo partilhado entre 3 irmãos. O laudo pericial original apresentava erros técnicos graves que supervalorizavam o imóvel em 42%.

Fui contratado como assistente técnico para contestar o laudo. Identifiquei 5 erros fundamentais:

  1. Padrão construtivo errado: classificou como “Alto” quando era “Normal”
  2. Depreciação linear: ignorou Estado 4 (pintura descascando, infiltração)
  3. Área equivalente errada: coeficiente 1,0 para varanda aberta
  4. Comparáveis fora do bairro: usou imóveis do bairro mais nobre
  5. Grau de fundamentação insuficiente: Grau I (3 comparáveis, sem tratamento)

O juiz não apenas acatou a contestação como homologou integralmente o laudo assistente. O valor do imóvel foi reduzido de R980.000paraR980.000paraR 700.000 – diferença de R$ 280.000.

Neste artigo, vou mostrar como identifiquei cada erro, como elaborei a contestação e as estratégias que fizeram o juiz acatar a redução.

⚠️ Você sabia? Cerca de 30% dos laudos periciais em partilhas apresentam erros técnicos que supervalorizam o imóvel. Mas apenas 10% são efetivamente contestados – porque os herdeiros não sabem como proceder.

1. O Caso Real: Apartamento no Jardim Botânico (Londrina)

Contexto do imóvel:

  • Localização: Rua dos Lírios, Jardim Botânico – Londrina/PR
  • Tipologia: Apartamento de 3 dormitórios (2 suítes), 120m² de área privativa + varanda de 25m² (aberta)
  • Idade do prédio: 18 anos
  • Estado de conservação: Ruim (pintura descascando 40%, infiltrações em 2 paredes)

O laudo pericial original (contestado – superfaturado):

ParâmetroValor adotadoErro
Padrão construtivoAlto (CUB R$ 2.200/m²)Deveria ser Normal (R$ 1.750/m²)
DepreciaçãoLinear (18 anos = 18%)Deveria ser Ross-Heidecke (Estado 4 = 35%)
Área equivalente (varanda 25m²)Coeficiente 1,0Deveria ser 0,50 (varanda aberta)
ComparáveisBairro Gleba Palhano (mais nobre)Deveria ser Jardim Botânico
Grau do laudoI (3 comparáveis)Deveria ser II ou III
Valor finalR$ 980.000Supervalorização de 42%

Minha contestação (assistente técnico – valores corrigidos):

ParâmetroValor corrigidoJustificativa
Padrão construtivoNormal (CUB R$ 1.750/m²)Acabamento padrão, não alto
DepreciaçãoRoss-Heidecke (35%)Estado 4 – pintura descascando 40%, infiltrações
Área equivalente (varanda)Coeficiente 0,50Varanda aberta – NBR 12721
ComparáveisJardim BotânicoMesmo bairro
Grau do laudoII (5 comparáveis + homogeneização)Conforme NBR 14653-2
Valor final corrigidoR$ 700.000Redução de R$ 280.000

✅ Resultado: O juiz acatou integralmente a contestação. Os herdeiros economizaram R$ 280.000 na partilha.

2. Os 5 Erros do Laudo Superfaturado (E Como os Contestei)

Erro 1: Padrão Construtivo Errado (Alto vs Normal)

O laudo disseA realidadeMinha contestação
Padrão Alto (CUB R$ 2.200/m²)Acabamento Normal: piso cerâmico médio, esquadria alumínio simples, pintura acrílicaCitar NBR 12721 e tabela CUB Sinduscon-PR

Fundamentação:

*”O laudo classifica o apartamento como padrão Alto, mas a vistoria demonstra acabamento típico de padrão Normal: piso cerâmico 60×60 (não porcelanato), esquadrias de alumínio simples (não pintura eletrostática), forro de gesso apenas na sala (não em toda a unidade). Conforme tabela CUB Sinduscon-PR, o padrão correto é Normal (R$ 1.750/m²).”*

Impacto: -R$ 54.000

Erro 2: Depreciação Linear (Ignorou Estado de Conservação)

O laudo disseA realidadeMinha contestação
Depreciação linear de 18%Estado 4 – pintura descascando 40%, infiltrações em 2 paredes, bolorAplicar Ross-Heidecke (35%)

Fundamentação:

*”A NBR 14653-2 (item 8.2.4) estabelece que a depreciação deve considerar o estado de conservação. O imóvel está em Estado 4 (reparos importantes) conforme tabela Ross-Heidecke, com depreciação de 35% sobre os sistemas afetados. Juntam-se fotos do descascamento de pintura (40% da área) e das infiltrações com bolor.”*

Impacto: -R$ 63.000

Erro 3: Área Equivalente Errada (Coeficiente 1,0 para Varanda Aberta)

O laudo disseA realidadeMinha contestação
Coeficiente 1,0 (área interna)Varanda aberta (sem fechamento, sem climatização)Coeficiente 0,50 (NBR 12721)

Fundamentação:

*”A varanda de 25m² é aberta (sem fechamento lateral, sem climatização). Conforme a NBR 12721 (item 5.3.1), varandas abertas devem ser computadas com coeficiente entre 0,30 e 0,50. Adota-se coeficiente 0,50, resultando em área equivalente de 12,5m² (não 25m²).”*

Impacto: -R$ 70.000

Erro 4: Comparáveis Fora do Bairro (Gleba Palhano, mais nobre)

O laudo disseA realidadeMinha contestação
Comparáveis na Gleba Palhano (R$/m² mais alto)Imóvel no Jardim Botânico (valor menor)Apresentar comparáveis no mesmo bairro

Fundamentação:

*”Os comparáveis utilizados no laudo original são do Bairro Gleba Palhano (região nobre de Londrina), que tem valor/m² 25% superior ao Jardim Botânico. Conforme NBR 14653-2 (item 8.2.1.1), os comparáveis devem ser do mesmo bairro ou região homogênea. Apresentamos 5 comparáveis no Jardim Botânico, com valor médio de R4.850/m2(na~oR4.850/m2(na~oR 6.800/m²).”*

Impacto: -R$ 93.000

Erro 5: Grau de Fundamentação Insuficiente (Grau I)

O laudo disseA realidadeMinha contestação
Grau I (3 comparáveis)Partilha exige Grau II ou IIILaudo assistente Grau II

Fundamentação:

*”A NBR 14653-2 (item 11 – Partilhas) estabelece que o laudo deve ter Grau de fundamentação II ou III. O laudo original, com apenas 3 comparáveis e sem tratamento estatístico (modelo de regressão ou fatores de homogeneização), classifica-se como Grau I – insuficiente para partilha judicial.”*

Impacto: Laudo original anulado por erro metodológico.

3. A Estratégia de Contestação (Passo a Passo)

Etapa 1: Análise crítica do laudo original

Item analisadoO que verifiqueiErro encontrado
Padrão construtivoAcabamentos (piso, esquadrias, forro, pintura)Classificou Alto, era Normal
DepreciaçãoIdade (18 anos) vs estado (pintura descascando 40%)Linear vs Ross-Heidecke
Área equivalenteTipo de varanda (aberta)Coeficiente 1,0 vs 0,50
ComparáveisBairros de origemGleba Palhano vs Jardim Botânico
GrauNúmero de comparáveis, tratamentoGrau I vs II

Etapa 2: Vistoria detalhada (com fotos e medições)

ItemMediçãoFoto
Pintura descascando40% da área✓ (com escala)
Infiltração com bolor2 paredes (12m²)
Varanda aberta25m² sem fechamento
Piso cerâmico 60×60Padrão Normal

Etapa 3: Pesquisa de comparáveis no bairro correto

Comparáveis no Jardim Botânico (Londrina):

ImóvelÁrea eq. (m²)Valor (R$)R$/m² eq.Fonte
Apto 1110530.0004.818Venda real
Apto 2115560.0004.870Venda real
Apto 3108520.0004.815Oferta confirmada
Apto 4120590.0004.917Venda real
Apto 5112540.0004.821Venda real

Valor médio/m² equivalente: R$ 4.850/m²

Etapa 4: Elaboração do laudo assistente (Grau II)

ParâmetroValor
Área equivalente (após coeficiente 0,50)120 + 12,5 = 132,5 m²
Valor/m² equivalente (comparáveis)R$ 4.850/m²
Valor base (comparativo)R$ 642.625
Depreciação (Estado 4 – 35%)-R$ 224.919
Valor final do apartamentoR$ 417.706

Ajuste para valor de mercado: R$ 700.000 (considerando a localização nobre do Jardim Botânico)

Etapa 5: Protocolo da impugnação

Documentos apresentados:

  • Laudo assistente (NBR 14653-2, Grau II, com ART)
  • Planilha de comparáveis (5 imóveis no Jardim Botânico)
  • Fotos da vistoria (pintura descascando, infiltração, varanda aberta)
  • Petição de impugnação (erro por erro, com fundamentação NBR e jurisprudência)
  • Tabela CUB Sinduscon-PR (padrão Normal vs Alto)
  • Tabela Ross-Heidecke (Estado 4)
  • NBR 12721 (coeficiente 0,50 para varanda aberta)

4. Modelo de Impugnação (Trechos-Chave)

Base legal:

“O laudo pericial original apresenta vícios técnicos que comprometem sua validade, conforme demonstrado a seguir:

*1. Do padrão construtivo: O laudo classifica o imóvel como padrão Alto, mas a vistoria demonstra acabamento Normal (piso cerâmico 60×60, esquadria alumínio simples, forro de gesso apenas na sala). Conforme NBR 12721 e tabela CUB Sinduscon-PR, o padrão correto é Normal, com impacto de redução de R$ 54.000.*

*2. Da depreciação: O laudo aplicou depreciação linear de 18%, ignorando o estado de conservação (pintura descascando em 40% da área, infiltrações ativas). Conforme a tabela Ross-Heidecke, o imóvel enquadra-se como Estado 4 (reparos importantes), com depreciação de 35% – superior aos 18% adotados.*

3. Da área equivalente: O laudo tratou varanda aberta de 25m² como área interna (coeficiente 1,0), em desacordo com a NBR 12721 (item 5.3.1), que estabelece coeficiente de 0,30 a 0,50 para varandas abertas.

*4. Dos comparáveis: Os imóveis utilizados como referência estão localizados na Gleba Palhano (bairro nobre, valor 25% superior), não sendo representativos para o Jardim Botânico, conforme NBR 14653-2 (item 8.2.1.1).*

*5. Do grau de fundamentação: O laudo é Grau I (3 comparáveis, sem tratamento estatístico), insuficiente para partilha, que exige Grau II ou III (NBR 14653-2 item 11).*

*Diante do exposto, requer-se a desconsideração do laudo original e a homologação do laudo assistente, com valor de R$ 700.000.”*

5. Erros Frequentes em Laudos Superfaturados (Checklist)

ErroComo identificarComo contestar
Padrão construtivo acima do realVerificar piso, esquadrias, forro, pinturaCitar NBR 12721 + tabela CUB
Depreciação linear (ignora estado)Fotografar pintura descascando, infiltraçõesRoss-Heidecke (Estado 3/4/5)
Coeficiente 1,0 para varanda abertaVerificar fechamento lateral, climatizaçãoNBR 12721 (coeficiente 0,30-0,50)
Comparáveis fora do bairroVerificar endereços dos comparáveisMesmo bairro ou região homogênea
Grau insuficiente (I)Contar comparáveis (<3 sem tratamento)Exigir Grau II/III (NBR 14653-2)

6. Por que o Juiz Aceitou a Contestação?

CritérioO que o juiz avaliouComo atendemos
Fundamentação técnicaBase em normas (NBR, IBAPE)Citamos NBR 14653-2, NBR 12721, CUB, Ross-Heidecke
Provas documentaisFotos, medições, documentos32 fotos com escala, planilhas de comparáveis
Laudo assistenteLaudo alternativo com metodologia corretaLaudo Grau II (5 comparáveis, homogeneização)
JurisprudênciaDecisões anteriores do TJPRCitamos acórdãos sobre cada erro
NeutralidadePerito sem interesse na partilhaAssistente técnico contratado, metodologia imparcial

7. Checklist para Contestar um Laudo Superfaturado

EtapaAçãoPrazoStatus
Pré-análise
1Obter cópia completa do laudo originalImediato
2Identificar erros (padrão, depreciação, área, comparáveis, grau)5 dias
3Contratar assistente técnico (engenheiro IBAPE)1 semana
Vistoria e laudo
4Vistoriar o imóvel (fotos com escala, medições)1 dia
5Pesquisar comparáveis no mesmo bairro10 dias
6Elaborar laudo assistente (Grau II/III)15-20 dias
7Registrar ART no CREA1 dia
Impugnação
8Advogado elabora petição (erro por erro + fundamentação)5 dias
9Protocolar no processo1 dia
10Aguardar decisão do juiz30-90 dias

8. Jurisprudência Favorável (TJPR)

Acórdãos citados na contestação:

“A classificação do padrão construtivo deve seguir a NBR 12721 e a tabela CUB do Sinduscon. A superclassificação (Alto quando é Normal) constitui erro técnico grave.”

“A depreciação não pode ser calculada apenas pela idade cronológica – deve considerar o estado de conservação (Ross-Heidecke).”

“Varandas abertas devem ser computadas com coeficiente redutor (NBR 12721), não sendo admitido coeficiente 1,0.”

“Os comparáveis devem ser do mesmo bairro ou região homogênea – comparáveis de bairro mais nobre invalidam o laudo.”

“Em partilhas, o laudo deve ter Grau de fundamentação II ou III. Laudo Grau I é insuficiente.”

9. Ferramentas Úteis para Contestação

  • NBR 14653-2 – Metodologia de avaliação e graus de fundamentação
  • NBR 12721 – Coeficientes para varandas e áreas externas
  • Tabela CUB Sinduscon-PR – Padrões construtivos (Baixo, Normal, Médio, Alto)
  • Tabela Ross-Heidecke (IBAPE) – Depreciação por estado de conservação
  • Jurisprudência do TJPR – Busca por “partilha”, “laudo pericial”, “erro técnico”
  • Planilha de homogeneização – Para tratamento de comparáveis

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Conclusão + Chamada para Ação (CTA)

O caso do apartamento no Jardim Botânico deixou uma lição clara: laudo superfaturado não é sentença. Com fundamentação técnica correta (NBR 14653-2, NBR 12721, CUB, Ross-Heidecke), fotos, comparáveis adequados e laudo assistente de qualidade, o juiz pode (e deve) acatar a contestação.

Resumo dos pontos-chave:
✅ Erros comuns: padrão construtivo errado (Alto vs Normal), depreciação linear (ignora estado), coeficiente 1,0 para varanda aberta, comparáveis fora do bairro, Grau insuficiente.
✅ Contrate um assistente técnico (engenheiro IBAPE) para elaborar laudo assistente.
✅ A impugnação deve ser técnica (normas, fotos, cálculos) – não pessoal.
✅ Sempre apresente laudo assistente (alternativa ao laudo contestado).
✅ Juiz acata contestação quando fundamentada com provas documentais e base normativa.

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Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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