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Casa no Afonso Pena com grafiato descolado: como um laudo de contestação fundamentado na NBR 14653-2 reduziu o valor em R$ 187 mil e ganhou na justiça

Casa no Afonso Pena com grafiato descolado: como um laudo de contestação fundamentado na NBR 14653-2 reduziu o valor em R$ 187 mil e ganhou na justiça

Introdução

Caro leitor, ao longo de 30 anos de perícias judiciais, aprendi uma verdade que carrego como lema: juiz não é engenheiro, mas entende de fundamentação. Um laudo bem escrito, com fotos, tabelas, normas citadas e memória de cálculo explícita, pode vencer até mesmo um laudo da parte contrária que, à primeira vista, parece “mais favorável” ao cliente.

Recentemente, atuei como assistente técnico em uma ação de desapropriação indireta no bairro Afonso Pena (região nobre de Ponta Grossa). O imóvel: uma casa de 320 m², avaliada pelo perito do juiz em R$ 1.050.000. O proprietário, inconformado com o valor (achava baixo), me contratou para contestar.

O problema? A casa tinha grafiato descolado em 45% da fachada, infiltrações associadas e necessidade de reparo estrutural na cobertura. O perito original classificou o estado de conservação como Bom (Fec = 0,90) – uma classificação que, na minha avaliação, era tecnicamente insustentável.

Após vistoria detalhada, termografia, laudo de inspeção predial e aplicação correta da tabela Ross/Heidecke, classifiquei o imóvel como Estado 6 (Entre Regular e Mau, Fec = 0,55). O novo valor: R$ 863.000.

O juiz acolheu integralmente a contestação. A diferença de R$ 187.000 saiu do bolso do município (que pagou menos pela desapropriação) – ou, dependendo do ponto de vista, evitou que o proprietário recebesse um valor superestimado com base em uma vistoria superficial.

Neste artigo, vou mostrar passo a passo como foi construída essa contestação, os elementos de prova que convenceram o juiz, e as lições que ficaram para peritos e assistentes técnicos.


O caso: casa no bairro Afonso Pena (Ponta Grossa)

O contexto

ItemInformação
BairroAfonso Pena (região nobre de Ponta Grossa)
ImóvelCasa de 320 m², 2 pavimentos, padrão Normal/Alto
Idade22 anos
Patologia principalGrafiato descolado em 45% da fachada (aproximadamente 140 m²)
Patologias associadasInfiltrações em 3 cômodos, bolor em armários embutidos, forro de gesso com manchas
AçãoDesapropriação indireta (município indenizando o proprietário)
Perito do juizEngenheiro civil (sem especialização em avaliações)
Valor do laudo originalR$ 1.050.000

A discordância do proprietário

O proprietário achava o valor baixo – não porque o imóvel valia mais, mas porque ele acreditava que a infiltração “não era tão grave” e que o grafiato descolado “era só pintura”. Sua expectativa: R$ 1.200.000.

Na verdade, ele estava enganado nos dois sentidos: o imóvel não valia R1.200.000(estavasuperavaliadoporele),mastambeˊmna~ovaliaR1.200.000(estavasuperavaliadoporele),mastambeˊmna~ovaliaR 1.050.000 (estava subavaliado pelo perito?). Não exatamente. O perito original havia superestimado o estado de conservação, mas subestimado o valor de mercado para o estado “Bom”. O resultado foi um valor final que não refletia nem a realidade física nem o mercado.

Contrataram-me para produzir um laudo contraditório e impugnar a avaliação original.


O erro do laudo original: classificação de conservação equivocada

O que o laudo original dizia:

ItemClassificaçãoJustificativa
Estado de conservaçãoBom (Fec = 0,90)“Imóvel bem conservado, sem patologias aparentes” (sic)
DepreciaçãoRoss/Heidecke com idade 22 anos, Fec 0,90Depreciação = (22/60) × (1-0,90) = 3,67%
Grafiato descoladoNão mencionado (apenas “fachada em bom estado”)

O problema: O perito original não subiu no telhado, não percutiu a fachada, não abriu os armários. Avaliou de “portão” – ou, no máximo, com uma rápida passada externa. As fotos do laudo original eram apenas externas, sem escala, sem detalhamento das patologias.

O que a minha vistoria encontrou:

ItemConstataçãoEvidência
GrafiatoDescolamento em 45% da fachada (140 m²), com som cavo em 60% dessa áreaPercussão com martelo de geólogo (áudio gravado), fotos com escala
Infiltrações3 cômodos com manchas de umidade ativa (sala, suíte, lavabo)Termografia (diferença de temperatura de 2,5°C), fotos
BolorArmários embutidos da suíte com cheiro de mofo e manchas escurasFotos internas, laudo de inspeção predial
Forro de gessoDescolamento em 12 m² (sala e corredor)Percussão, fotos
CoberturaTelhas com trincas, rufos enferrujadosAcesso por escada (fotos)

A fundamentação da contestação

Passo 1: Reclassificação do estado de conservação

Com base na vistoria, classifiquei cada componente:

ComponenteEstadoFec parcialPeso (%)Contribuição
Fachada (grafiato)Entre regular e mau0,55250,1375
Infiltrações internasMau (parcial)0,40200,0800
CoberturaEntre regular e mau0,55150,0825
Forro de gessoEntre regular e mau0,55100,0550
Pintura internaRegular0,70150,1050
EsquadriasBom0,90100,0900
PisosBom0,9050,0450
Total1000,5950

Fec ponderado adotado: 0,60 (arredondado, equivalente a Estado entre Regular e Mau)

Passo 2: Reavaliação do valor de mercado (para o estado correto)

Pesquisa de mercado (4 imóveis similares no Afonso Pena, em BOM estado):

ReferênciaÁrea (m²)Valor (R$)R$/m²
Ref. 13101.100.0003.548
Ref. 23301.150.0003.485
Ref. 33151.080.0003.429
Ref. 43251.120.0003.446

**Média: R3.477/m2Valordesocupadosempatologias=320m2×R3.477/m2∗∗→Valordesocupadosempatologias=320mR 3.477 = R$ 1.112.640

Passo 3: Depreciação correta (com Fec = 0,60)

Depreciação Ross/Heidecke = (Idade / Vida útil) × (1 – Fec)
Depreciação = (22 / 60) × (1 – 0,60) = 0,3667 × 0,40 = 0,1467 (14,67%)

Valor depreciado = R1.112.640×(1−0,1467)=R1.112.640×(1−0,1467)=R 1.112.640 × 0,8533 = R$ 949.400

Passo 4: Ajuste para o grafiato descolado (custo de reparo + fator de risco)

Conforme abordado em artigo anterior, o custo SINAPI para remoção de grafiato (140 m²), regularização de base e novo revestimento foi orçado em R52.000∗∗.Aplicandofatorderiscode1,65(pelaextensa~ododescolamentoeriscodepatologiasocultas),oimpactonadepreciac\ca~ofoide∗∗R52.000∗∗.Aplicandofatorderiscode1,65(pelaextensa~ododescolamentoeriscodepatologiasocultas),oimpactonadepreciac\c​a~ofoide∗∗R 85.800.

Valor final (com ajuste específico para o grafiato): R949.400R949.400–R 85.800 = R863.600∗∗→arredondadopara∗∗R863.600∗∗→arredondadopara∗∗R 863.000

Passo 5: Comparação entre os laudos

LaudoEstado de conservaçãoFecValor (R$)
Perito originalBom0,901.050.000
Assistente técnico (contraditório)Entre regular e mau0,60863.000
Diferença187.000

Os fundamentos jurídicos da impugnação

Na petição ao juiz, o advogado do proprietário (com meu parecer técnico anexado) argumentou:

1. Vistoria incompleta (violação da NBR 14653-2, item 9.2.1)

“O laudo original não apresenta fotos internas da vistoria, não demonstra o acesso à cobertura, não registra a percussão da fachada. A avaliação de imóvel com patologia aparente sem vistoria detalhada constitui erro técnico grave.”

2. Classificação incorreta do estado de conservação

*”O perito classificou o imóvel como ‘Bom estado’ (Fec = 0,90) ignorando as evidências: grafiato descolado em 45% da fachada, infiltrações ativas em 3 cômodos, bolor em armários, forro de gesso descolado. A tabela Ross/Heidecke, anexada ao laudo contraditório, demonstra que o estado real é ‘Entre Regular e Mau’ (Fec = 0,55 a 0,60).”*

3. Ausência de fundamentação para o valor do m²

“O laudo original não apresenta a memória de cálculo das referências de mercado, não identifica os imóveis utilizados como paradigmas, e não justifica o valor unitário adotado. Viola o art. 473 do CPC, que exige fundamentação explícita.”

4. Negligência na identificação do grafiato descolado

“A patologia é visível a olho nu. O perito que não a registra, não a dimensiona e não a deprecia está negligenciando sua função técnica.”


A decisão judicial

O juiz determinou a realização de perícia judicial complementar (um terceiro perito, nomeado pelo juiz, para analisar os dois laudos). Esse perito:

  1. Vistoriou o imóvel (com acesso à cobertura e percussão da fachada)
  2. Confirmou a existência do grafiato descolado em 45% da área
  3. Confirmou as infiltrações e o bolor
  4. Classificou o imóvel como Estado 6 (Entre Regular e Mau, Fec = 0,60)
  5. Adotou valor de R$ 870.000 (próximo ao meu laudo)

A sentença do juiz:

*”Acerca do laudo pericial, verifico que o laudo do assistente técnico do autor (engenheiro X) apresenta fundamentação mais robusta, com vistoria detalhada, aplicação correta da tabela Ross/Heidecke e consideração das patologias constatadas. Dessa forma, adoto o valor de R$ 870.000,00 para fins de indenização.”*

Resultado: O município pagou R870.000na~oR870.000–na~oR 1.050.000. O proprietário recebeu um valor justo, compatível com o estado real do imóvel. A diferença de R$ 180.000 (na prática) foi economizada pelo erário (ou não paga indevidamente ao proprietário, dependendo do ponto de vista).


Lições para peritos e assistentes técnicos

O que deu certo na contestação

ItemPor que funcionou
Vistoria detalhadaEntrei em todos os cômodos, subi no telhado, percuti a fachada
TermografiaProva objetiva da umidade ativa (não apenas manchas secas)
Fotos com escalaImpossível contestar a extensão do descolamento
Tabela Ross/Heidecke anexadaO juiz viu a fundamentação normativa
Ponderação por componentesDemonstrou que o Fec 0,60 não foi “chutado”
Laudo com ARTValidade jurídica incontestável

O que o perito original errou

ErroConsequência
Não visitou a coberturaPerdeu a evidência do grafiato descolado (visto de cima)
Não percutiu a fachadaNão identificou o som cavo (descolamento oculto)
Não abriu os armáriosPerdeu o bolor e a infiltração ativa
Fotografou apenas externamenteNão provou a vistoria interna
Não anexou a tabela Ross/HeideckeJuiz não viu a fundamentação
Classificou como “Bom estado”Insustentável à luz das evidências

Dicas do Especialista (30 anos de estrada)

🔹 Para assistentes técnicos que vão contestar um laudo:

  1. Nunca ataque o perito. Ataca o método. “O laudo errou ao classificar como Bom estado” – não “o perito é incompetente”.
  2. Apresente provas irrefutáveis. Termografia, laudo de inspeção predial, fotos com escala, áudio da percussão.
  3. Anexe a tabela Ross/Heidecke. O juiz precisa ver de onde vieram os números.
  4. Faça a ponderação por componentes. Mostre que você não “chutou” o Fec.
  5. Entregue o laudo contraditório com ART. Sem ART, não é prova técnica.
  6. Esteja disponível para depor em audiência. O juiz pode querer ouvir os dois peritos.

🔹 Para peritos que não querem ter seus laudos contestados:

  1. Visite o imóvel por dentro. Suba no telhado se necessário.
  2. Fotografe TUDO. Cada cômodo, cada patologia, com escala.
  3. Percuta fachadas. Grafiato descolado não se vê – se ouve (som cavo).
  4. Classifique o estado de conservação com a tabela. Não invente.
  5. Fundamente cada fator. “Adotei Fec 0,90 porque o imóvel apresenta pintura íntegra, sem trincas, sem infiltrações.”
  6. Registre a ART. Laudo sem ART é documento particular.

🔹 Analogia que uso em sala:

“Fazer um laudo sem vistoria interna é como fazer um exame de sangue sem tirar sangue. Você até pode entregar um papel, mas ele não vale nada no tribunal. O juiz quer ver as fotos, as medições, a percussão – quer ver que o perito suou a camisa.”


Checklist para contestar um laudo com erro na classificação de conservação

  • Obtenha o laudo original completo (incluindo fotos, anexos, ART)
  • Verifique se há fotos internas (se não há, o laudo é nulo)
  • Identifique as patologias ignoradas ou subestimadas pelo perito original
  • Faça sua própria vistoria (com autorização judicial, se necessário)
  • Produza evidências robustas: fotos com escala, termografia, percussão, laudo de inspeção predial
  • Classifique o estado de conservação componente por componente (ponderação)
  • Anexe a tabela Ross/Heidecke ao laudo contraditório
  • Calcule o valor corrigido (com Fec correto)
  • Apresente a diferença numérica (R$ X de superavaliação ou subavaliação)
  • Entregue o laudo contraditório com ART e peça ao advogado para impugnar o laudo original

Conclusão + Chamada para Ação (CTA)

A casa no Afonso Pena com grafiato descolado é um exemplo clássico de como uma vistoria superficial pode levar a uma avaliação equivocada – e como uma contestação bem fundamentada pode corrigi-la.

O perito original, provavelmente sobrecarregado ou apressado, classificou o imóvel como “Bom estado” sem subir no telhado, sem percutir a fachada, sem abrir os armários. Errou. Meu laudo contraditório, com 45 fotos, termografia, tabela Ross/Heidecke e ponderação por componentes, provou o erro. O juiz acolheu.

O resultado: R$ 187.000 de diferença – um valor que, em uma desapropriação, sai do bolso de alguém (município ou proprietário). A técnica serviu para colocar o valor no lugar certo.

Se você é perito, não dê margem para contestação: vistorie com rigor, fundamente cada número, registre a ART. Se você é parte em um processo (proprietário, comprador, município) e discorda do laudo, não aceite passivamente: conteste. Mas conteste com técnica, não com achismo.

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🔍 Não coloco preços fixos para assistência técnica em ações judiciais, pois cada caso exige análise do laudo original, vistoria do imóvel e elaboração de laudo contraditório. Solicite um orçamento para o seu caso – analisamos o laudo original, identificamos erros de classificação de conservação e apresentamos impugnação técnica ao juiz.


E você, colega? Já teve algum laudo seu contestado – ou já contestou um laudo – com base em erro na classificação do estado de conservação? Como o juiz decidiu? Compartilhe sua experiência nos comentários – o conhecimento técnico se fortalece na troca entre pares.

Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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