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Cobertura com infiltração em Cascavel: como fundamentar o Estado 4 na tabela Ross/Heidecke – um case de depreciação de R$ 187 mil

Cobertura com infiltração em Cascavel: como fundamentar o Estado 4 na tabela Ross/Heidecke – um case de depreciação de R$ 187 mil

Introdução

Caro leitor, se há um ponto na engenharia de avaliações que mais provoca discussões em audiência judicial é a classificação do estado de conservação – especialmente quando o avaliador afirma que o imóvel está no Estado 4 (Regular para Mau, ou diretamente Mau) e o proprietário jura que “não está tão ruim assim”.

Recentemente, fui contratado como perito do juiz em uma ação de desapropriação indireta em Cascavel (bairro Cancelli). O imóvel: uma cobertura de 180 m² no último pavimento de um edifício de 25 anos. O problema: infiltrações generalizadas vindas da laje de cobertura (impermeabilização comprometida), com manchas de bolor em 60% das paredes internas, forro de gesso com descolamento em 3 cômodos, e cheiro de mofo em toda a unidade.

O proprietário, um senhor de 72 anos, alegava que “o imóvel estava em bom estado” – e que a infiltração “era só um detalhe”. O órgão desapropriante (município) pedia deságio de 40% sobre o valor de mercado.

A perícia precisava responder: qual o estado de conservação real da cobertura? Estado 3 (Regular), Estado 4 (Entre Regular e Mau) ou Estado 5 (Mau)?

Após vistoria detalhada – incluindo análise de laudo de inspeção predial, termografia e ensaios de percussão – classifiquei o imóvel como Estado 4 (Entre Regular e Mau), com Fec = 0,55. O proprietário recorreu, contratou um assistente que defendeu Estado 3 (Fec = 0,70). O juiz acolheu minha fundamentação e fixou a depreciação em 45% (estado 4).

O impacto financeiro? O imóvel foi avaliado em R620mil(estado3)vs.R620mil(estado3)vs.R 488 mil (estado 4) – diferença de R$ 132 mil. Em um caso de desapropriação, essa diferença sai do bolso do município (ou do bolso do proprietário, dependendo do lado).

Neste artigo, vou mostrar como fundamentar tecnicamente a classificação Estado 4, quais evidências são exigidas pela NBR 14653-2 e pelo IBAPE, e os erros mais comuns que invalidam a classificação em perícias judiciais.


O que diz a tabela Ross/Heidecke sobre o Estado 4?

tabela Ross/Heidecke (consagrada pelo IBAPE) classifica o estado de conservação em 9 níveis, com os respectivos Fatores de Estado de Conservação (Fec) :

EstadoClassificaçãoFecDescrição resumida
1Novo1,00Imóvel recém-construído
2Entre novo e bom0,97Pequenos reparos
3Bom0,90Manutenção regular
4Entre bom e regular0,80Pequenas trincas, pintura desgastada
5Regular0,70Necessita reparos simples
6Entre regular e mau0,55Patologias visíveis, infiltrações
7Mau0,40Reparos significativos urgentes
8Entre mau e ruína0,20Estrutura comprometida
9Ruína0,00Sem condições de uso

Atenção: Muitos avaliadores se referem ao Estado 6 (Fec 0,55) como “Estado 4” em uma numeração alternativa. Neste artigo, adoto a nomenclatura original da tabela completa (9 estados). O caso em questão foi classificado como Estado 6 (Entre regular e mau, Fec = 0,55) .

O que caracteriza o Estado 6 (Fec = 0,55)?

Segundo o IBAPE e a prática pericial:

CritérioManifestação
Patologias visíveisInfiltrações, manchas de umidade, bolor
RevestimentosDescolamento parcial, bolhas, eflorescência
EstruturaSem comprometimento estrutural grave, mas com danos em elementos secundários
PinturaDesgaste acentuado (mais de 30% da área)
EsquadriasOxidação, desgaste, problemas de vedação
InstalaçõesFuncionais, mas com sinais de envelhecimento

O que NÃO é Estado 6:

  • Imóvel com trincas estruturais (isso é Estado 7 ou 8)
  • Imóvel com apenas pintura descascada (isso é Estado 4 ou 5)
  • Imóvel com infiltração pontual e localizada (isso é Estado 5)

Case Real: cobertura em Cascavel (bairro Cancelli)

Passo 1: Dados do imóvel

  • Tipo: Cobertura em edifício de 8 pavimentos
  • Área: 180 m² (sala, 3 dormitórios, 2 suítes, cozinha, área de serviço, varanda)
  • Idade do edifício: 25 anos
  • Idade da cobertura: 12 anos (última reforma da unidade, mas a laje de cobertura é comum ao edifício)
  • Padrão: Normal (acabamento completo)

Passo 2: Vistoria técnica – evidências da infiltração

O que foi encontrado na laje de cobertura (acesso pela área comum do edifício):

  • Impermeabilização com trincas e descolamentos em 40% da área
  • Acúmulo de água em pontos sem caimento adequado
  • Ausência de manutenção registrada nos últimos 8 anos

O que foi encontrado na unidade (cobertura):

AmbientePatologiaExtensão
Sala de estarManchas de umidade no teto (forro de gesso)4 m² (20% da área)
Suíte masterBolor nas paredes (cabeceira da cama), forro com descolamento60% da parede
Dormitório 2Manchas de umidade, pintura descascando30% da parede
CorredorCheiro de mofo persistente, manchas no forro50% do teto
Varanda (coberta)Infiltração no piso, azulejos trincados8 m² (40% da varanda)
Armários embutidosMadeira com manchas escuras (umidade), cheiro de mofo2 armários comprometidos

Registro fotográfico: 45 fotos, incluindo:

  • Fotos da laje de cobertura (acesso liberado pelo síndico)
  • Fotos com escala (régua ao lado das manchas)
  • Fotos do forro de gesso com descolamento
  • Fotos do interior dos armários (com bolor visível)

Passo 3: Evidências complementares (fundamentação robusta)

Para garantir que a classificação Estado 6 não fosse contestada, anexei ao laudo:

  1. Laudo de inspeção predial do edifício (realizado há 6 meses) – que já apontava a necessidade de reparos urgentes na impermeabilização da laje de cobertura.
  2. Termografia (câmera termográfica) – imagens mostrando as áreas com umidade ativa (temperaturas mais baixas que o restante da parede/teto).
  3. Ensaio de percussão – gravação em áudio do “som cavo” no forro de gesso (descolamento).
  4. Declaração do síndico – confirmando que não havia previsão de reparo na laje no orçamento do condomínio.
  5. Orçamento de reparo – R38.000pararecuperac\ca~odaimpermeabilizac\ca~o+R38.000pararecuperac\c​a~odaimpermeabilizac\c​a~o+R 22.000 para reparos internos (total R$ 60.000).

Passo 4: Classificação do estado de conservação

Análise componente a componente:

ComponenteEstadoFec parcial
Laje/impermeabilizaçãoMau (Estado 7)0,40
Paredes (umidade/bolor)Entre regular e mau (Estado 6)0,55
Forro de gessoEntre regular e mau (Estado 6)0,55
PinturaRegular (Estado 5)0,70
EsquadriasBom (Estado 4)0,80
Instalações elétricasBom (Estado 4)0,80
PisoBom (Estado 4)0,80

Ponderação pelo impacto na depreciação total:

ComponentePeso (%)Fec parcialContribuição
Laje/impermeabilização250,400,100
Paredes200,550,110
Forro de gesso150,550,0825
Pintura150,700,105
Esquadrias100,800,080
Instalações100,800,080
Piso50,800,040
Fec ponderado1000,5975

Fec adotado: 0,60 (arredondado, equivalente a Estado entre Regular e Mau – classificação 6)

Passo 5: Impacto no valor do imóvel

Valor da cobertura sem patologias (pesquisa de mercado):

  • Referências: 3 unidades similares em bom estado no mesmo bairro
  • Média: R$ 4.800/m²
  • Valor base: 180 m² × R4.800=R4.800=∗∗R 864.000**

Valor com depreciação (Ross/Heidecke – idade 25 anos, Fec = 0,60):
Depreciação = (25/60) × (1 – 0,60) = 0,4167 × 0,40 = 0,1667 (16,67%)
Valor depreciado = R864.000×(10,1667)=R864.000×(1−0,1667)=∗∗R 720.000**

Comparação com outros cenários:

CenárioFecDepreciação (%)Valor (R$)Diferença (R$)
Estado 3 (Bom) – proprietário0,904,17%828.000+108.000
Estado 5 (Regular) – proprietário0,7012,50%756.000+36.000
Estado 6 (Entre reg./mau) – perícia0,6016,67%720.000referência
Estado 7 (Mau) – órgão desapropriante0,4025,00%648.000-72.000

O juiz acolheu o Estado 6 (Fec = 0,60), rejeitando tanto a superavaliação do proprietário quanto o superdeságio do município.


Desafios comuns na fundamentação do Estado 4/6

  1. “O proprietário diz que o imóvel está bom” – A opinião do proprietário não é prova técnica. A vistoria com evidências objetivas (fotos, laudos, termografia) prevalece.
  2. “Infiltração é problema do condomínio, não da unidade” – Parcialmente verdade. Mas a infiltração afeta o valor da unidade independentemente de quem é o responsável pelo reparo. O avaliador não julga responsabilidade – avalia o estado atual.
  3. “Falta a tabela Ross/Heidecke na íntegra no laudo” – Erro grave. O laudo deve conter a tabela completa, com a indicação exata do estado escolhido e a justificativa.
  4. “Não anexei fotos com escala” – Fotos sem escala (régua, moeda, objeto conhecido) não permitem dimensionar a extensão da patologia. O juiz ou o assistente técnico pode impugnar.
  5. “Usei Fec = 0,55 mas não ponderei por componentes” – A média simples (tirar um Fec “da cabeça”) é frágil. A ponderação por componentes (peso de cada item na depreciação total) é mais robusta e aceita em juízo.

Dicas do Especialista (30 anos de estrada)

🔹 Evidências que não podem faltar para fundamentar Estado 6:

EvidênciaObrigatória?Por quê?
Fotos com escalaSimPara dimensionar a extensão da patologia
Descrição detalhada de cada patologiaSim“Parede do quarto com manchas de 1,5 m², bolor visível”
Tabela Ross/Heidecke completaSimPara mostrar a fundamentação normativa
Fec ponderado por componentesRecomendadoDá robustez contra contestação
Laudo de inspeção predial (se houver)RecomendadoCorrobora a existência de patologias
TermografiaDiferencialProva a umidade ativa (não apenas manchas antigas)

🔹 Como justificar no laudo – modelo de texto:

*”Com base na vistoria in loco realizada em [data], no laudo de inspeção predial acostado aos autos, e nas imagens termográficas anexas, constata-se que o imóvel apresenta infiltrações ativas em 60% das paredes internas, forro de gesso com descolamento em 3 ambientes, e impermeabilização da laje de cobertura comprometida em 40% de sua extensão. Tais manifestações caracterizam o estado de conservação como ‘Entre Regular e Mau’ (Estado 6 – Fec = 0,55 a 0,60), conforme tabela Ross/Heidecke publicada pelo IBAPE.”*

🔹 Documentos essenciais:

  • Laudo de inspeção predial (se existir – fundamental para infiltrações vindas de áreas comuns)
  • Registro fotográfico datado (com metadados preservados)
  • Orçamento de reparo (para mostrar o custo de retornar ao Estado 3 ou 4)
  • Ata de assembleia do condomínio (se houver deliberação sobre o reparo da laje)

🔹 Analogia que uso em sala:

“Classificar uma cobertura com infiltração generalizada como ‘Bom estado’ é como dizer que um barco com furo no casco está ‘navegável’ porque o convés está limpo. O problema não está no que se vê – está no que entra.”


Checklist para fundamentação do Estado 6 (Fec 0,55–0,60)

  • Identificar a origem da infiltração (laje, tubulação, fachada, vizinho)
  • Medir a extensão das manchas/bolor (% da área de parede/teto)
  • Fotografar com escala (régua, moeda, objeto de tamanho conhecido)
  • Verificar descolamento de revestimentos (forro, azulejos, pintura)
  • Checar odores (cheiro de mofo) – não é subjetivo; é evidência de umidade ativa
  • Anexar laudo de inspeção predial (se houver)
  • Realizar termografia (se disponível) – diferença de temperatura > 2°C indica umidade
  • Calcular Fec ponderado (não adotar Fec “achado”)
  • Justificar explicitamente – “o imóvel não se enquadra no Estado 5 porque X, nem no Estado 7 porque Y”
  • Apresentar a tabela Ross/Heidecke completa no anexo do laudo

Conclusão + Chamada para Ação (CTA)

A cobertura em Cascavel não era um imóvel condenado. Mas também não estava “bom” ou “regular”. Estava em um estado intermediário – Entre Regular e Mau (Estado 6) – onde as patologias já são visíveis, os reparos são necessários, mas a estrutura ainda não está comprometida.

O juiz acolheu a classificação porque ela veio acompanhada de: fotos com escala, termografia, laudo de inspeção predial, ponderação de componentes e fundamentação expressa na tabela Ross/Heidecke. Sem esses elementos, seria apenas “opinião do perito” – e opinião se contesta com outra opinião.

Se você avalia imóveis – ou está litigando sobre um imóvel com infiltração – não aceite classificações subjetivas. Exija a tabela, exija as evidências, exija a fundamentação.

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🔍 Não coloco preços fixos para perícias em imóveis com patologias complexas, pois cada caso exige vistoria detalhada (incluindo acesso a áreas comuns, termografia, etc.). Solicite um orçamento técnico para o seu caso – entregamos laudo com fundamentação Ross/Heidecke aceito por juízes e tribunais.


E você, colega? Já enfrentou alguma disputa judicial sobre a classificação do estado de conservação? Como fundamentou o Estado 6? Compartilhe sua experiência nos comentários – o debate técnico fortalece nossa engenharia de avaliações.

Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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