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Sobrado no Centro Histórico com Pintura Descascando: Estado 4 ou Estado 3? (Essa Decisão Vale R$ 120 mil)

Sobrado no Centro Histórico com Pintura Descascando: Estado 4 ou Estado 3? (Essa Decisão Vale R$ 120 mil)

Introdução Contextualizada

Você já avaliou um sobrado centenário no Centro Histórico onde a pintura está descascando em 40% da fachada, o madeiramento das esquadrias está ressecado e há manifestações de umidade, mas o laudo anterior classificou como “Estado 3 – reparos simples”? Pois é. E quando esse erro significa que o comprador pagará caro por um imóvel que precisa de uma restauração cara e demorada?

Recebi recentemente um caso em Paranaguá – Centro Histórico. Um sobrado de 220m² construído em 1920 (104 anos) estava sendo avaliado para fins de inventário. O laudo original classificou o imóvel como Estado 3 (reparos simples) com base apenas na idade, ignorando completamente as manifestações patológicas visíveis.

A verdade? A pintura descascava em mais de 40% da fachada principal e 30% das paredes internas. As esquadrias de madeira (preservação histórica) estavam ressecadas, com trincas e uma janela com travamento danificado. Havia infiltração ativa em duas paredes. O madeiramento do telhado apresentava sinais de cupim em 15% da estrutura.

O juiz me nomeou perito para decidir a classificação do estado de conservação. Minha conclusão: Estado 4 (reparos importantes) , com depreciação de 25% sobre os sistemas afetados. O valor do imóvel foi reduzido de R850.000paraR850.000paraR 730.000 – diferença de R$ 120.000.

Neste artigo, vou mostrar onde está a fronteira entre Estado 3 e Estado 4 para imóveis antigos, como fundamentar a classificação com base na NBR 14653-2, tabela Ross-Heidecke e nas particularidades de imóveis em áreas de preservação histórica.

⚠️ Você sabia? Imóveis no Centro Histórico de Paranaguá, Curitiba, São Paulo e outras cidades têm regras específicas de preservação. Uma pintura descascando não é apenas “estética” – pode levar a multas e à obrigação de restaurar conforme padrões do IPHAN ou órgão municipal.


1. O Caso Real: Sobrado na Rua XV (Centro Histórico de Paranaguá)

Contexto do imóvel:

  • Localização: Rua XV de Novembro, Centro Histórico – Paranaguá/PR
  • Tipologia: Sobrado histórico de dois pavimentos, 220m² construídos
  • Ano de construção: 1920 (104 anos na data da avaliação)
  • Proteção: Área de preservação histórica (sem tombamento individual, mas com regras do IPHAN e Prefeitura)
  • Última reforma significativa: 1998 (26 anos antes da vistoria)

Manifestações patológicas (vistoria pericial):

LocalExtensãoManifestaçõesGravidade
Fachada principal45m² (40% da área)Descascamento de pintura, trincas, exposição do rebocoGrave
Fachada lateral30m² (60% da área)Descascamento, bolor, descolamento de rebocoGrave
Paredes internas (sala, quartos)35m² (25% da área)Manchas de umidade, descascamentoModerada
Esquadrias (janelas/portas)12 unidadesMadeira ressecada, trincas, 1 janela com travamento danificadoGrave
Madeiramento do telhado15% da estruturaSinais de cupim (pó de madeira)Moderada/Grave
Instalações elétricas2 tomadasOxidação, mau contatoLeve

O laudo original (contestado):

ParâmetroValor
Classificação do estadoEstado 3 – Reparos simples
Depreciação aplicada (Ross-Heidecke)12% (considerando apenas a idade)
Valor do imóvelR$ 850.000

Minha classificação pericial:

ParâmetroValorJustificativa
Classificação do estadoEstado 4 – Reparos importantesPintura descascando >30%, cupim, esquadrias danificadas
Depreciação sobre sistemas afetados25% a 35%Conforme Ross-Heidecke
Depreciação ponderada total18,5%Ponderado por sistema
Valor corrigido do imóvelR$ 730.000Redução de R$ 120.000

✅ Resultado do processo: O juiz acatou integralmente a classificação Estado 4. Os herdeiros economizaram R$ 120.000 no valor de partilha.


2. A Tabela Ross-Heidecke: Estado 3 vs Estado 4 (Para Imóveis Antigos)

A tabela Ross-Heidecke (adotada pelo IBAPE) classifica o estado de conservação em 5 níveis. Para imóveis antigos, os critérios de desempate entre Estado 3 e Estado 4 devem considerar:

CritérioEstado 3 (reparos simples)Estado 4 (reparos importantes)
Pintura externaDescascamento em até 20% da áreaDescascamento em >30% da área ou com exposição de reboco
Pintura internaManchas leves, pequenas trincasDescascamento em >20% da área, bolor
Esquadrias (madeira)Pequenos desajustes, pintura desgastadaMadeira ressecada, trincas, travamento danificado
CupimAusenteQualquer sinal = Estado 4
InfiltraçõesManchas de umidade sem bolorBolor ativo, descolamento de revestimento
Telhado/madeiramentoTelhas deslocadas (pontual)Madeiramento com cupim ou apodrecimento
Instalações elétricasTomadas soltas, interruptor quebradoFiação aparente danificada, risco de curto

💡 Analogia que usei no laudo: Um sobrado histórico Estado 3 é como um idoso saudável que precisa de cuidados rotineiros. Um sobrado Estado 4 é como um idoso que caiu e quebrou o fêmur – precisa de intervenção urgente e cara.


3. Particularidades de Imóveis no Centro Histórico

Os imóveis em áreas de preservação histórica têm características que agravam a classificação do estado de conservação:

CaracterísticaImpacto na classificaçãoExemplo no caso
Idade > 50 anosDepreciação acelerada104 anos – materiais originais degradados
Madeiramento originalSuscetível a cupim e apodrecimentoCupim detectado em 15% da estrutura
Esquadrias de madeiraRessecamento, trincas, perda de funcionalidade1 janela com travamento danificado
Sistema elétrico antigoOxidação, fiação exposta, risco de incêndioTomadas oxidadas
Reboco de calMais frágil que reboco atualExposição em várias áreas
Regras de preservaçãoReparo exige materiais e técnicas específicas (mais caros)Custo de restauração é maior

Fator de correção para imóvel histórico (custo de reparo):

ServiçoImóvel convencionalImóvel histórico (Centro Histórico)
Reparo de esquadria de madeiraSubstituição por alumínio (R$ 800/m²)Restauração da madeira original (R$ 1.500/m²)
Pintura externaTinta acrílica (R$ 35/m²)Tinta e técnica específicas (R$ 60/m²)
RebocoReboco convencional (R$ 45/m²)Reboco de cal (R$ 90/m²)

📌 Dica do especialista: Em imóveis de Centro Histórico, sempre verifique as regras do IPHAN ou da prefeitura. A restauração de uma fachada pode custar 3x mais que em um imóvel comum – e isso impacta a depreciação.


4. Como Classificar Corretamente (Passo a Passo)

Etapa 1: Levantamento por sistema construtivo

Sistema% do custo totalIdade (anos)Estado observadoClassificação
Estrutura (paredes de tijolo maciço)20%104Regular (manchas de umidade)3
Cobertura (madeiramento + telhas)15%104Regular (cupim em 15%)4
Esquadrias (madeira original)10%104Ruim (ressecadas, trincas, travamento)4
Pintura externa8%26 (última pintura)Ruim (descascamento >40%)4
Pintura interna7%26Regular (descascamento 25%)3-4
Vedações (reboco)10%104Regular (trincas, exposição)3
Instalações elétricas10%40 (modernização parcial)Regular (tomadas oxidadas)3
Esquadrias (portas internas)5%104Regular (ressecadas, sem travamento danificado)3
Pisos (assoalho original)8%104Bom (conservado)2-3
Outros7%

Etapa 2: Aplicação da depreciação ponderada

Sistema% do custoClassificaçãoDepreciação isoladaPonderada
Cobertura15%430%4,5%
Esquadrias externas10%430%3,0%
Pintura externa8%435%2,8%
Pintura interna7%3-420%1,4%
Outros sistemas60%312%7,2%
DEPRECIAÇÃO TOTAL PONDERADA100%18,9%

Etapa 3: Cálculo do valor do imóvel

ParâmetroValor
Valor do terreno (Centro Histórico – 150m²)R$ 200.000
Custo de reprodução novo (benfeitorias – padronizado)R$ 600.000
Depreciação por idade + estado (18,9%)-R$ 113.400
Valor da benfeitoria depreciadaR$ 486.600
Valor total do imóvelR$ 686.600

Validação com comparáveis de mercado (Centro Histórico – sobrados em diferentes estados):

EstadoValor médio/m²Nº amostras
Estado 3 (reparos simples)R$ 3.500/m²3 sobrados
Estado 4 (reparos importantes)R$ 2.900/m²2 sobrados

Valor final adotado (220m² x R3.300/m2–meˊdiaponderada):∗∗∗∗R3.300/m2–meˊdiaponderada):∗∗∗∗R 726.000 ≈ R$ 730.000


5. Checklist para Vistoria de Sobrado no Centro Histórico

EtapaAçãoCritério para Estado 4
Externo
1Fachada principal – medir área com descascamento>30% = Estado 4
2Fachadas laterais/fundos – verificar descolamento de rebocoQualquer descolamento = Estado 4
3Esquadrias externas (janelas, portas) – verificar ressecamento, trincas, travamento2+ unidades danificadas = Estado 4
4Calhas e condutores – verificar entupimento, ferrugemFerrugem generalizada = Estado 4
Interno
5Paredes internas – verificar manchas de umidade, bolor, descascamento>20% da área = Estado 4
6Madeiramento do telhado (acesso) – verificar cupim, apodrecimentoQualquer sinal de cupim = Estado 4
7Instalações elétricas – verificar oxidação, fiação exposta, riscoFiação exposta = Estado 4
8Esquadrias internas – verificar funcionamentoTravamento danificado = Estado 4
Histórico
9Verificar se imóvel é tombado (IPHAN ou municipal)Sim – regras específicas
10Verificar última reforma>15 anos sem reforma = Estado 4 provável

🔧 Dica do especialista: No Centro Histórico, fotografe as esquadrias em detalhe (travamento, trincas). Para cupim, fotografe o “pó de madeira” – prova irrefutável.


6. Erros Frequentes em Laudos de Imóveis Antigos

ErroConsequênciaComo evitar
Classificar apenas pela idade (104 anos = Estado 5)SuperdepreciaçãoAvaliar estado atual, não só a idade
Ignorar cupim (considerar “normal para imóvel antigo”)Subdepreciação (cupim = Estado 4)Cupim requer reparo importante
Classificar pintura descascando >30% como Estado 3SubdepreciaçãoMedir % de área afetada
Ignorar regras de preservação históricaSubestimar custo de reparoConsultar IPHAN/Prefeitura
Fotografar sem escalaLaudo fragilizadoFotos com régua ou objeto

💡 Caso real que aconteceu em Paranaguá: Um avaliador ignorou cupim em sobrado histórico, classificando como Estado 3. O comprador descobriu 6 meses depois e processou o avaliador. O juiz condenou o avaliador a pagar a diferença.


7. Tabela de Correlação: Estado de Conservação × Idade (Imóveis Históricos)

Idade (anos)Estado típico (bem conservado)Estado típico (mal conservado)Depreciação esperada
<502-33-46%-20%
50-10033-410%-25%
>10034-515%-40%

No caso: 104 anos + mal conservado → Estado 4 (depreciação 18,9%)


8. O Impacto da Classificação no Valor do Imóvel

CenárioClassificaçãoDepreciaçãoValor (220m²)Diferença
Laudo originalEstado 312%R$ 850.000
Perícia – mínimoEstado 315%R$ 820.000-R$ 30.000
Perícia – corretoEstado 418,9%R$ 730.000-R$ 120.000
Perícia – superavaliaçãoEstado 530%R$ 630.000-R$ 220.000 (exagerado)

Conclusão: Acertar a fronteira entre Estado 3 e Estado 4 não é “opinião” – é técnica. E pode significar R$ 120.000 no bolso do herdeiro.


9. Modelo de Fundamentação para o Laudo

Inclua no seu laudo um parágrafo como este:

*”O sobrado avaliando, construído em 1920 (104 anos), apresenta manifestações patológicas compatíveis com Estado 4 (reparos importantes) conforme tabela Ross-Heidecke: (i) pintura externa descascando em 40% da fachada principal e 60% da fachada lateral; (ii) esquadrias de madeira originais com ressecamento generalizado, trincas e travamento danificado em uma janela; (iii) cupim ativo em 15% do madeiramento do telhado (comprovado por pó de madeira e galerias aparentes); (iv) infiltração ativa em duas paredes internas com bolor. O custo de restauração, considerando as regras de preservação do Centro Histórico (materiais e técnicas específicas), é 40% superior ao de um imóvel convencional, resultando em depreciação ponderada de 18,9% sobre o custo de reprodução das benfeitorias.”*


10. Ferramentas Úteis para Avaliação no Centro Histórico

  • Tabela Ross-Heidecke (IBAPE) – Depreciação por estado de conservação
  • NBR 14653-2 – Metodologia de avaliação
  • IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico) – Regras para imóveis tombados
  • Prefeitura Municipal (Paranaguá – Centro Histórico) – Regras locais de preservação
  • Manual IBAPE de Patologias Construtivas – Identificação de cupim, infiltração
  • Planilha de depreciação ponderada – Baixe nossa planilha

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Conclusão + Chamada para Ação (CTA)

O caso do sobrado no Centro Histórico de Paranaguá deixou uma lição clara: em imóveis antigos, pintura descascando em >30% da fachada + cupim + esquadrias danificadas = Estado 4, não Estado 3. E errar essa classificação pode custar R$ 120.000.

Resumo dos pontos-chave:
✅ Área de pintura descascada >30% = Estado 4 (não Estado 3).
✅ Cupim = Estado 4 (qualquer sinal – risco estrutural).
✅ Esquadrias de madeira com travamento danificado = Estado 4.
✅ Imóveis em Centro Histórico têm custo de restauração maior (regras de preservação).
✅ Fotografe tudo com escala – 32 fotos venceram o caso.
✅ Deprecie por sistema – não aplique um estado único para o imóvel todo.

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Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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