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Sobrado com Varanda Coberta: Como Aplicar o Coeficiente 0,75 pela NBR 12721 na Avaliação

Sobrado com Varanda Coberta: Como Aplicar o Coeficiente 0,75 pela NBR 12721 na Avaliação

Introdução: O Valor da Área que não é “Área”

Recebi um caso que se tornaria um clássico em minhas aulas sobre avaliação de imóveis residenciais. Um cliente, proprietário de um sobrado em um bairro nobre, estava frustrado com o resultado da avaliação de seu imóvel. Ele havia construído uma varanda coberta de 20 m², com estrutura metálica, telhado de vidro e piso de porcelanato, que ele considerava uma “área nobre” da casa. No entanto, o laudo de avaliação atribuiu a essa varanda um coeficiente de equivalência de apenas 0,75, reduzindo significativamente seu valor.

“Mas doutor, como pode? Gastei R$ 40.000,00 na varanda, ela é coberta, tem vidro, é um ambiente maravilhoso. Por que ela vale menos do que os outros cômodos?”

Essa pergunta, que ouvi durante a apresentação do laudo, revela uma das maiores fontes de confusão na avaliação de imóveis: a diferença entre área construída e área equivalente para fins de avaliação. A NBR 12721, norma que trata da avaliação de custos unitários de construção, estabelece coeficientes de equivalência para diferentes tipos de áreas, refletindo a complexidade construtiva e o valor relativo de cada ambiente.

Neste artigo, vou desvendar como aplicar o coeficiente de equivalência de 0,75 para varandas cobertas em avaliações de sobrados, com fundamentação na NBR 12721, nas diretrizes do IBAPE e em um estudo de caso prático.

O Caso Concreto: O Sobrado com Varanda Coberta

O imóvel em questão é um sobrado de 2 pavimentos, localizado em um bairro nobre, com as seguintes características:

Áreas do Imóvel:

  • Área Privativa (Interior): 150 m² (3 quartos, sala, cozinha, banheiros, circulação).
  • Varanda Coberta: 20 m², com estrutura metálica, telhado de vidro laminado, piso de porcelanato, iluminação embutida e fechamento com vidros tipo “pivô”.
  • Garagem: 25 m², com piso de concreto e portão eletrônico.
  • Área de Serviço: 10 m², com piso cerâmico e tanque.

A Pergunta do Cliente: “Como avaliar corretamente a varanda? Ela é coberta e integrada à casa, por que não vale o mesmo que um cômodo interno?”

A Dica do Especialista: “A NBR 12721 estabelece que áreas como varandas, garagens e áreas de serviço têm coeficientes de equivalência menores do que os cômodos internos, porque seus custos de construção e seu valor de uso são inferiores. O coeficiente 0,75 para varandas cobertas reflete essa realidade.”

O Que é a NBR 12721 e Para Que Ela Serve?

A NBR 12721, intitulada “Avaliação de Custos Unitários de Construção”, é a norma da ABNT que estabelece critérios para o cálculo do custo de construção de edificações, com base no CUB (Custo Unitário Básico) e em fatores de adequação.

Para Que Ela é Utilizada?

  1. Orçamentos de Construção: Para estimar o custo de construção de novos imóveis.
  2. Incorporações Imobiliárias: Para calcular o valor de venda de unidades em condomínios em construção.
  3. Seguros: Para determinar o valor de reposição de imóveis.
  4. Avaliações de Imóveis Usados: Para calcular o custo de reprodução e, indiretamente, para determinar áreas equivalentes.

A Relação com a Avaliação de Imóveis Usados:

Embora a NBR 12721 seja uma norma de custos, ela é amplamente utilizada em avaliações de imóveis usados como referência para a área equivalente. Isso porque, ao calcular o valor de um imóvel pelo Método do Custo de Reprodução, é necessário determinar a área equivalente para aplicar o CUB.

Os Coeficientes de Equivalência da NBR 12721

A NBR 12721 estabelece coeficientes de equivalência para diferentes tipos de áreas, refletindo a complexidade construtiva e o valor relativo de cada ambiente.

Tabela de Coeficientes de Equivalência (NBR 12721):

Tipo de ÁreaCoeficiente de Equivalência
Área Privativa (Cômodos Internos)1,00
Varanda Coberta0,75
Varanda Descoberta0,50
Garagem (Coberta)0,50
Garagem (Descoberta)0,25
Área de Serviço0,50
Depósito0,50
Coração0,50
Sacada0,50

Por que a Varanda Coberta tem Coeficiente 0,75?

  1. Menor Complexidade Construtiva: A varanda coberta tem uma estrutura mais simples do que os cômodos internos (paredes externas, revestimentos mais simples, menos instalações).
  2. Menor Valor de Uso: A varanda é um ambiente de transição ou lazer, não um cômodo essencial (como um quarto ou sala).
  3. Menor Vida Útil: A varanda, por ser mais exposta ao clima, pode se deteriorar mais rapidamente do que os cômodos internos.
  4. Menor Valor de Mercado: O valor por metro quadrado de uma varanda, em uma transação de venda, é inferior ao valor de um cômodo interno.

A Aplicação Prática: O Cálculo da Área Equivalente

Para avaliar o sobrado, o primeiro passo é calcular a área equivalente, ou seja, a área que será utilizada para aplicar o CUB (ou o valor de mercado por metro quadrado).

Passo 1: Levantamento das Áreas:

AmbienteÁrea (m²)Coeficiente (NBR 12721)Área Equivalente (m²)
Área Privativa (Cômodos Internos)150,001,00150,00
Varanda Coberta20,000,7515,00
Garagem25,000,5012,50
Área de Serviço10,000,505,00
TOTAL205,00182,50

Área Equivalente Total: 182,50 m²

Passo 2: Cálculo do Valor de Reprodução (Novo):

  • Padrão Construtivo: Médio/Alto (para a região).
  • CUB (Custo Unitário Básico) para o padrão Médio/Alto: R$ 2.800,00/m² (valor aproximado).
  • Valor de Reprodução (Novo): 182,50 m² x R2.800,00/m2=R2.800,00/m2=∗∗R 511.000,00**

Passo 3: Aplicação da Depreciação:

  • Idade do Imóvel: 15 anos.
  • Estado de Conservação: Bom (Estado 2).
  • Depreciação (Ross-Heidecke): 15% (considerando a idade e o estado de conservação).
  • Valor Depreciado: R511.000,00x(10,15)=R511.000,00x(1−0,15)=∗∗R 434.350,00**

Passo 4: Valor do Terreno (Proporcional):

  • Valor do Terreno (Comercial): R$ 400.000,00 (para o terreno total do sobrado).
  • Fração do Terreno (Área do Terreno): Não há fração, pois é um sobrado em terreno próprio.
  • Valor do Terreno: R$ 400.000,00.

Passo 5: Valor do Imóvel (Terreno + Benfeitoria):

  • Valor da Benfeitoria: R$ 434.350,00.
  • Valor do Terreno: R$ 400.000,00.
  • Valor Total: R$ 834.350,00.

Valor Final (Arredondado): R$ 835.000,00

Comparação: Coeficiente 0,75 vs. Coeficiente 1,00 (Erro Comum)

Para demonstrar o impacto do coeficiente correto, vamos comparar o valor do imóvel se a varanda tivesse sido considerada com coeficiente 1,00 (erro comum):

CenárioCoeficiente da VarandaÁrea Equivalente (m²)Valor de Reprodução (R$)Valor do Imóvel (R$)
Cenário Correto0,75182,50511.000,00835.000,00
Cenário Errado1,00205,00574.000,00888.000,00

Diferença: R888.000,00R888.000,00−R 835.000,00 = R$ 53.000,00 (6,0% a mais)

Conclusão: Se a varanda tivesse sido considerada com coeficiente 1,00 (como um cômodo interno), o valor do imóvel seria superestimado em R$ 53.000,00. Esse é um erro comum que pode levar a avaliações incorretas e decisões equivocadas.

A Varanda Coberta: Características que Podem Influenciar o Coeficiente

Embora a NBR 12721 estabeleça o coeficiente de 0,75 para varandas cobertas, algumas características podem influenciar esse coeficiente, podendo aumentá-lo ou reduzi-lo:

Fatores que Podem Aumentar o Coeficiente (Valorizar a Varanda):

  1. Integração Total com a Casa: Varanda com acesso direto da sala, sem desníveis, com o mesmo piso e revestimento.
  2. Fechamento com Vidro: Fechamento com vidros tipo “pivô” ou “esquadria de alumínio”, que protegem do vento e da chuva.
  3. Instalações Elétricas: Iluminação embutida, tomadas, sistema de som.
  4. Aquecimento: Sistema de aquecimento ou climatização.
  5. Paisagismo: Jardim vertical ou vasos integrados à decoração.

Fatores que Podem Reduzir o Coeficiente (Desvalorizar a Varanda):

  1. Fechamento Inadequado: Varanda aberta ou com fechamento precário (ex: cortinas de plástico).
  2. Exposição ao Clima: Varanda muito exposta ao sol, vento ou chuva.
  3. Manutenção Precária: Piso desgastado, vidros sujos, estrutura oxidada.
  4. Falta de Integração: Varanda com acesso apenas por um cômodo secundário.

A Dica do Especialista: “O coeficiente 0,75 da NBR 12721 é um ponto de partida, não um dogma. Em alguns casos, a varanda pode ser avaliada com um coeficiente maior (até 0,85), se suas características a aproximarem de um cômodo interno. O avaliador deve analisar cada caso individualmente.”

A Estrutura do Laudo: Como Fundamentar a Aplicação do Coeficiente

O laudo técnico deve fundamentar claramente a aplicação do coeficiente de equivalência para a varanda coberta.

Estrutura Recomendada:

1. Introdução e Objetivo:

  • Identificação do imóvel e do objetivo da avaliação.

2. Vistoria Técnica:

  • Descrição detalhada da varanda: área, revestimentos, fechamento, instalações, integração com a casa.
  • Registro fotográfico da varanda.

3. Fundamentação Legal e Normativa:

  • Citação da NBR 12721.
  • Explicação dos coeficientes de equivalência e sua aplicação.

4. Justificativa para o Coeficiente Adotado:

  • Demonstração de que a varanda atende às características de uma varanda coberta (coeficiente 0,75).
  • Justificativa para a não adoção de um coeficiente maior (se for o caso).

5. Cálculo da Área Equivalente:

  • Tabela com áreas, coeficientes e áreas equivalentes.

6. Cálculo do Valor do Imóvel:

  • Aplicação do CUB, depreciação e valor do terreno.

7. Conclusão:

  • Valor final do imóvel.

Desafios Comuns em Avaliações com NBR 12721

  1. Aplicação Incorreta do Coeficiente: Atribuir coeficiente 1,00 para varandas cobertas, garagens ou áreas de serviço.
  2. Ignorar as Características Específicas: Não considerar a qualidade da varanda (integração, fechamento, instalações) na definição do coeficiente.
  3. Não Justificar o Coeficiente: Não fundamentar a escolha do coeficiente no laudo, o que pode gerar contestações.
  4. Confundir NBR 12721 com NBR 14653: A NBR 12721 é uma norma de custos; a NBR 14653 é a norma de avaliação de imóveis. Ambas se complementam, mas não se confundem.

Checklist para Avaliação com NBR 12721

  • Levantamento de Todas as Áreas: Interna, varandas, garagem, área de serviço.
  • Classificação de Cada Área: Coeficiente de equivalência adequado (NBR 12721).
  • Cálculo da Área Equivalente: Soma das áreas ponderadas pelos coeficientes.
  • Pesquisa do CUB: Para o padrão construtivo e a região do imóvel.
  • Depreciação: Aplicação da metodologia Ross-Heidecke.
  • Valor do Terreno: Pesquisa de mercado.
  • Justificativa dos Coeficientes: Fundamentação no laudo.
  • Laudo Assinado: ART/RRT e anotação no CREA.

Conclusão: A Técnica a Serviço da Precisão

A aplicação do coeficiente de equivalência de 0,75 para varandas cobertas, conforme a NBR 12721, é uma demonstração de como o rigor técnico e a fundamentação normativa são essenciais para uma avaliação precisa e justa. A varanda, embora seja um ambiente valorizado, não tem o mesmo valor de um cômodo interno, e o coeficiente de 0,75 reflete essa realidade.

Para o profissional da avaliação, a mensagem é clara: o domínio da NBR 12721 e de seus coeficientes de equivalência é uma competência essencial para produzir laudos precisos e fundamentados. Ignorar ou aplicar incorretamente esses coeficientes pode levar a superestimações ou subestimações significativas do valor do imóvel.

Para proprietários e compradores, a lição é: o valor de uma varanda não é o custo de construção. É o valor de mercado, que considera sua funcionalidade, integração e características específicas. Um laudo técnico bem fundamentado é a melhor ferramenta para entender o valor real do seu imóvel.

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Gostou do conteúdo? A avaliação de imóveis residenciais é um campo que exige atenção a detalhes e fundamentação técnica. No próximo artigo, vamos abordar um tema complementar: “Como Avaliar Sobrados com Áreas Externas?” , onde exploramos as particularidades da avaliação de varandas, jardins e garagens.

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Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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