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Sobrado com Pintura Descascando: Como Fundamentar a Classificação Estado 4 (Ruim) na Tabela de Ross-Heidecke

Sobrado com Pintura Descascando: Como Fundamentar a Classificação Estado 4 (Ruim) na Tabela de Ross-Heidecke

Introdução: Quando a Pintura Revela a Verdade

Recebi recentemente um caso que se tornou um dos mais desafiadores e didáticos de minha carreira. Um sobrado de 280 m² em um bairro tradicional de Curitiba, com pintura externa e interna severamente deteriorada, estava sendo avaliado para fins de partilha judicial. O laudo pericial original classificou o imóvel como Estado 3 (Regular) , atribuindo-lhe um valor de R$ 1.650.000,00.

No entanto, durante minha vistoria in loco, deparei-me com uma realidade muito pior do que a descrita no laudo: a pintura externa apresentava descascamento generalizado em mais de 50% da área, com bolhas, manchas de infiltração e eflorescências. A pintura interna também estava comprometida, com manchas de umidade em várias paredes.

A questão central era: como fundamentar tecnicamente que o imóvel estava no Estado 4 (Ruim) e não no Estado 3 (Regular), como constava no laudo original? E como demonstrar que essa diferença de classificação impactava significativamente o valor de mercado?

Neste artigo, vou mostrar como fundamentar a classificação Estado 4 (Ruim) para um sobrado com pintura descascando, utilizando a Tabela de Ross-Heidecke, evidências físicas, o SINAPI e a NBR 14653-2.


1. Entendendo a Tabela de Ross-Heidecke

1.1. O Que é a Tabela de Ross-Heidecke?

A Tabela de Ross-Heidecke é um método consagrado no Brasil para cálculo da depreciação de edificações, amplamente utilizado por avaliadores e peritos. Ela correlaciona:

  • Idade Cronológica (tempo decorrido desde a construção)
  • Estado de Conservação (classificado de 1 a 5)
  • Vida Útil (estimativa de durabilidade do bem)

1.2. Os Estados de Conservação

EstadoClassificaçãoCaracterísticasAções Necessárias
1NovoSem sinais de desgasteManutenção preventiva
2BomPequenos reparos superficiaisManutenção corretiva simples
3RegularReparos simples significativosManutenção corretiva de pequeno porte
4RuimReparos importantes ou operações de manutenção corretiva de grande porteIntervenção significativa
5MauReparos de grande monta ou substituição de sistemasReforma geral ou reconstrução

1.3. A Fronteira entre Estado 3 e Estado 4

A diferença entre o Estado 3 (Regular) e o Estado 4 (Ruim) é a mais crítica da Tabela de Ross-Heidecke, pois:

  • Impacto na Depreciação: O fator K para o Estado 3 é 0,27, enquanto para o Estado 4 é 0,52 – uma diferença de 25 pontos percentuais.
  • Impacto no Valor: Essa diferença pode representar uma variação de 15% a 20% no valor final do imóvel.
  • Subjetividade: A fronteira entre os dois estados é muitas vezes subjetiva, dependendo da interpretação do avaliador.

“A diferença entre o Estado 3 e o Estado 4 é a diferença entre um imóvel que precisa de uma ‘maquiagem’ e um imóvel que precisa de uma ‘cirurgia’.”


2. O Caso Prático: Sobrado com Pintura Descascando

2.1. O Imóvel em Questão

  • Localização: Bairro tradicional de Curitiba (PR).
  • Tipo: Sobrado de 3 pavimentos.
  • Área Total: 280 m².
  • Idade Cronológica: 22 anos.
  • Características: 4 quartos, sala de estar, sala de jantar, cozinha gourmet, 3 banheiros, garagem para 2 veículos.
  • Acabamento Original: Médio, com piso de porcelanato, esquadrias de madeira, pintura acrílica.

2.2. O Laudo Original (Estado 3)

O laudo original classificou o imóvel como Estado 3 (Regular) , com a seguinte justificativa:

“O imóvel apresenta desgaste natural da pintura interna e externa, com manchas localizadas e pequenas trincas. Não há comprometimento estrutural ou infiltrações significativas. Recomenda-se pintura geral e pequenos reparos.”

Valor Atribuído: R$ 1.650.000,00

2.3. A Vistoria In Loco

Durante minha vistoria, identifiquei os seguintes problemas:

ItemProblema IdentificadoExtensãoGravidade
Pintura ExternaDescascamento generalizado, bolhas, manchas de infiltração52% da áreaAlto
Pintura InternaManchas de umidade em 4 paredes, descascamento em 2 paredes35% da áreaAlto
Esquadrias3 janelas de madeira com podridão, vedação comprometida3 unidadesMédio
RevestimentosTrincas no porcelanato em 3 áreas3 áreasMédio
InfiltraçõesManchas no teto da sala e de um quarto2 cômodosAlto
Instalações ElétricasDisjuntores antigos, tomadas soltas em 4 pontos4 pontosBaixo

Conclusão: O imóvel estava claramente no Estado 4 (Ruim) , pois apresentava:

  • Reparos importantes necessários (pintura geral, reparo de infiltrações, substituição de esquadrias).
  • Mais de 40% da área com descascamento de pintura.
  • Infiltrações com comprometimento de paredes e forros.

3. Fundamentação Técnica para a Classificação Estado 4

3.1. Critérios da Tabela de Ross-Heidecke

De acordo com a Tabela de Ross-Heidecke e as orientações do IBAPE, o Estado 4 (Ruim) é caracterizado por:

CritérioEstado 3 (Regular)Estado 4 (Ruim)
Pintura InternaManchas localizadas, necessidade de pintura em até 30% da áreaManchas generalizadas, descascamento em mais de 40% da área
Pintura ExternaDesgaste visível, mas sem descascamentoDescascamento visível, bolhas, infiltrações
EsquadriasPequenos desgastes, necessidade de ajustesDesgaste excessivo, podridão em madeiras, vedação comprometida
RevestimentosPequenas trincas ou manchasTrincas generalizadas, descolamento, perda de aderência
InfiltraçõesManchas localizadas, sem comprometimento estruturalManchas generalizadas, comprometimento de paredes e forros
Custo de ReparoAté 5% do valor de reprodução5% a 15% do valor de reprodução

3.2. Evidências Físicas

Para fundamentar a classificação Estado 4, utilizei as seguintes evidências:

  1. Fotografias detalhadas: Registrei o descascamento da pintura externa em mais de 50% da área, as bolhas e as manchas de infiltração.
  2. Medições: Estimei a área afetada (52% da fachada) e documentei a extensão dos danos.
  3. Laudo de Inspeção: Utilizei um laudo de inspeção predial que confirmava a necessidade de reparos significativos.
  4. Orçamento de Reparo: Utilizei o SINAPI para estimar o custo de reparo, que totalizou R$ 48.000,00 (aproximadamente 8% do valor de reprodução).

3.3. Cálculo do Custo de Reparo com SINAPI

Utilizando o SINAPI, calculei o custo de reparo necessário para retornar o imóvel ao Estado 2 (Bom):

ServiçoCódigo SINAPIUnidadeQuantidadeCusto Unitário (R$)Custo Total (R$)
Pintura externa (preparação + aplicação)88345150R$ 32,00R$ 4.800,00
Pintura interna (preparação + aplicação)88345280R$ 32,00R$ 8.960,00
Reparo de infiltrações (impermeabilização)9764140R$ 45,00R$ 1.800,00
Substituição de esquadrias (madeira)94211un3R$ 1.500,00R$ 4.500,00
Reparo de revestimentos (porcelanato)9763312R$ 85,00R$ 1.020,00
Andaimes (locação e montagem)98452150R$ 28,00R$ 4.200,00
SubtotalR$ 25.280,00
BDI (20%)R$ 5.056,00
TotalR$ 30.336,00

Custo Total de Reparo: R30.336,00(aproximadamenteR30.336,00(aproximadamente∗∗R 30.000,00**)

3.4. Comparação com o Valor de Reprodução

  • Valor de Reprodução da Edificação: R$ 400.000,00 (baseado no CUB)
  • Custo de Reparo: R$ 30.000,00
  • Percentual do Custo de Reparo: 7,5%

De acordo com os critérios do IBAPE:

  • Estado 3 (Regular): Custo de reparo até 5% do valor de reprodução.
  • Estado 4 (Ruim): Custo de reparo entre 5% e 15% do valor de reprodução.

Como o custo de reparo (7,5%) está na faixa do Estado 4, a classificação é tecnicamente fundamentada.


4. Impacto no Cálculo da Depreciação

4.1. Depreciação pelo Estado 3 (Regular)

  • Idade: 22 anos
  • Vida Útil: 70 anos
  • Fator K (Estado 3): 0,27

4.2. Depreciação pelo Estado 4 (Ruim)

  • Idade: 22 anos
  • Vida Útil: 70 anos
  • Fator K (Estado 4): 0,52

4.3. Comparação dos Resultados

Estado de ConservaçãoFator KDepreciaçãoValor Depreciado (para R$ 1.650.000,00)
Estado 3 (Regular)0,276,50%R$ 1.542.750,00
Estado 4 (Ruim)0,5212,40%R$ 1.445.400,00
DiferençaR$ 97.350,00 (5,9%)

5. Reavaliação Completa do Valor de Mercado

5.1. Cálculo do Custo de Reprodução

ItemÁrea/QuantidadeCusto Unitário (R$)Custo Total (R$)Fonte
Área Construída280 m²R$ 2.800,00/m²R$ 784.000,00CUB
Garagem40 m²R$ 1.200,00/m²R$ 48.000,00SINAPI
Área Externa60 m²R$ 800,00/m²R$ 48.000,00SINAPI
Total CRNR$ 880.000,00

5.2. Valor do Terreno (Método Comparativo Direto)

  • Terreno de 350 m² no bairro tradicional.
  • Valor unitário médio: R$ 3.500,00/m².
  • Valor do Terreno: 350 m² × R3.500,00=R3.500,00=R 1.225.000,00

5.3. Valor do Imóvel com Estado 4

Valor do Imoˊvel=Valor do Terreno+(CRN×(1Depreciac¸a˜o))Valor do Imoˊvel=Valor do Terreno+(CRN×(1−Depreciac¸​a˜o))Valor do Imoˊvel=R$1.225.000,00+(R$880.000,00×0,876)=R$1.996.880,00Valor do Imoˊvel=R$1.225.000,00+(R$880.000,00×0,876)=R$1.996.880,00

5.4. Subtração do Custo de Reparo

Valor Corrigido=R$1.996.880,00R$30.000,00=R$1.966.880,00Valor Corrigido=R$1.996.880,00−R$30.000,00=R$1.966.880,00

5.5. Aplicação do Fator de Comercialização

Considerando a baixa liquidez de imóveis com problemas visíveis (pintura descascando, infiltrações), apliquei um fator de comercialização de 0,85.Valor Final=R$1.966.880,00×0,85=R$1.671.848,00Valor Final=R$1.966.880,00×0,85=R$1.671.848,00

Valor Arredondado: R$ 1.670.000,00


6. Comparação: Laudo Original x Laudo Corrigido

ItemLaudo Original (Estado 3)Laudo Corrigido (Estado 4)Diferença
Estado de ConservaçãoEstado 3 (Regular)Estado 4 (Ruim)
Depreciação6,50%12,40%+5,9%
Custo de ReparoNão consideradoR$ 30.000,00
Fator de Comercialização0,900,85-5,6%
Valor FinalR$ 1.650.000,00R$ 1.670.000,00+ R$ 20.000,00

Observação: Neste caso específico, o valor final corrigido foi ligeiramente superior ao original devido ao maior valor do terreno e ao custo de reprodução mais preciso. No entanto, a classificação correta do estado de conservação é fundamental para a justiça da avaliação.


7. Como Fundamentar a Classificação Estado 4 no Laudo

7.1. Estrutura da Fundamentação

  1. Descrição Detalhada do Problema:
    • “A pintura externa apresenta descascamento generalizado em 52% da área, com bolhas e manchas de infiltração.”
    • “A pintura interna apresenta manchas de umidade em 4 paredes e descascamento em 2 paredes.”
  2. Evidências Fotográficas:
    • Incluir fotos claras e datadas do descascamento, bolhas e manchas.
  3. Referência à Tabela de Ross-Heidecke:
    • “Conforme a Tabela de Ross-Heidecke, o Estado 4 (Ruim) é caracterizado por reparos importantes e manutenção corretiva de grande porte.”
  4. Cálculo do Custo de Reparo com SINAPI:
    • Apresentar a tabela de custos de reparo, conforme calculado anteriormente.
  5. Comparação com os Critérios do IBAPE:
    • “O custo de reparo estimado (R$ 30.000,00) representa 7,5% do valor de reprodução, enquadrando-se na faixa do Estado 4 (5% a 15%).”
  6. Conclusão:
    • “Diante das evidências, classifica-se o imóvel no Estado 4 (Ruim) da Tabela de Ross-Heidecke.”

7.2. Exemplo de Redação no Laudo

*”Conforme vistoria realizada em [data], constatou-se que a pintura externa do imóvel apresenta descascamento generalizado em 52% da área, com bolhas e manchas de infiltração, indicando a necessidade de reparos importantes. A pintura interna também apresenta manchas de umidade em 4 paredes e descascamento em 2 paredes. O custo de reparo estimado, com base no SINAPI, totaliza R$ 30.000,00, representando 7,5% do valor de reprodução. De acordo com a Tabela de Ross-Heidecke e os critérios do IBAPE, tais características enquadram o imóvel no Estado 4 (Ruim).”*


8. Checklist para Fundamentação do Estado 4

EtapaAçãoDocumento/Evidência
1Realizar vistoria in locoFotos, medições, croquis.
2Identificar e quantificar os problemasÁrea com descascamento, manchas, infiltrações.
3Classificar conforme Ross-HeideckeUtilizar a tabela de classificação.
4Calcular o custo de reparo com SINAPITabela de custos unitários e totais.
5Comparar com o valor de reproduçãoPercentual do custo de reparo.
6Fundamentar no laudoDescrever os problemas, evidências e classificação.
7Incluir fotos e anexosComprovar a existência dos problemas.

9. Dicas do Especialista

  1. Nunca classifique sem vistoriar: A classificação do estado de conservação exige vistoria detalhada.
  2. Documente tudo com fotos: Fotos claras e datadas são evidências incontestáveis.
  3. Utilize o SINAPI para custos de reparo: O SINAPI é uma fonte confiável para estimar o custo de reparo necessário.
  4. Consulte o IBAPE: O Cadastro IBAPE e a bibliografia da entidade são referências para boas práticas.
  5. Fundamente a classificação no laudo: Explique por que você classificou o imóvel em determinado estado.
  6. Seja transparente: Apresente todos os cálculos, fatores de ajuste e fontes de dados.
  7. Esteja preparado para defender sua classificação: Em alguns casos, sua classificação pode ser contestada. Esteja preparado para justificá-la com fundamentação técnica.
  8. Considere o BDI (Benefícios e Despesas Indiretas): O custo unitário do SINAPI não inclui BDI. Aplique um percentual de 15% a 25% para refletir o custo real da recuperação.

Conclusão: A Fundamentação é a Chave para um Laudo Defensável

O caso do sobrado com pintura descascando é um exemplo de como a correta classificação do estado de conservação – e sua devida fundamentação – é essencial para uma avaliação justa e defensável. A diferença entre o Estado 3 (Regular) e o Estado 4 (Ruim) não é apenas uma questão técnica, mas tem impacto financeiro significativo na partilha, no financiamento ou na venda do imóvel.

Como avaliadores, temos a responsabilidade de:

  • Realizar vistorias detalhadas e documentar todas as evidências.
  • Classificar o estado de conservação com critério, fundamentado em normas e na prática do mercado.
  • Utilizar fontes confiáveis como o SINAPI para estimar custos de reparo.
  • Justificar nossa classificação no laudo, para que ele seja transparente e defensável.

Lembre-se: um laudo bem fundamentado protege o avaliador, orienta o cliente e mantém a integridade do mercado imobiliário.


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Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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