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Avaliação
Posto em Terreno de Marinha Vale Quanto? Como Fazer um Laudo que a União, o Banco e o Judiciário Aceitem

Posto em Terreno de Marinha Vale Quanto? Como Fazer um Laudo que a União, o Banco e o Judiciário Aceitem

Você já recebeu uma demanda como esta? “Engenheiro, o posto fica na orla, funcionando há 20 anos. O terreno é de marinha, mas tenho a ocupação autorizada pela SPU. Preciso do laudo para dar em garantia de financiamento.”

Pois bem. A maioria dos avaliadores comete um erro grave aqui: trata o terreno de marinha como se fosse um terreno particular. E o resultado? Laudo impugnado, financiamento negado, ou pior — ação de reintegração de posse movida pela União.

Neste artigo, vou mostrar como elaborar um laudo de avaliação de posto de combustível em terreno de marinha, respeitando a legislação do SPU (Serviço de Patrimônio da União), a NBR 14653-2, e o que bancos e juízes exigem.

Alerta inicial: Terreno de marinha não é propriedade privada. É um bem da União, sujeito a regime especial de ocupação, foro, laudêmio e taxa de ocupação. Ignorar isso é produzir um laudo nulo de pleno direito.


Objetivo da Avaliação: O Regime Fundiário Muda Tudo

Antes de qualquer cálculo, é obrigatório classificar a situação do posto no terreno de marinha:

Situação jurídicaImpacto no valuation
Ocupação autorizada (termo de permissão ou concessão)Valor reduzido — o ocupante não é dono, tem direito relativo
Ocupação não autorizada (área invadida)Valor próximo de zero para garantia bancária; pode haver ação de despejo
Aforamento (terreno foreiro com contrato de enfiteuse)Valor calculado como domínio útil (não o domínio pleno)
Cessão onerosa (compra do direito de ocupação)Valor equivalente ao mercado, mas com ressalvas contratuais
Ocupação com edificação regular (posto construído)As benfeitorias têm valor; o terreno, não (ou apenas o direito de superfície)

Caso real que atuei como perito: Posto na orla de Santos (SP), funcionando há 15 anos com termo de permissão da SPU. O laudo para inventário teve que separar: (1) valor das benfeitorias (R1,2milha~o)e(2)valordodomıˊniouˊtil(R1,2milha~o)e(2)valordodomıˊniouˊtil(R 800 mil). O herdeiro achou que valeria R$ 3 milhões. O juiz acatou integralmente a metodologia.


Métodos Técnicos (NBR 14653-2 + Legislação da SPU)

1. Método Comparativo Direto — Com Ajuste por Regime Fundiário

A NBR 14653-2 permite ajustes por direitos sobre o imóvel. Terreno de marinha é um direito limitado.

O que usar como referência:

  • Postos em terrenos de marinha com situação similar (difícil, mas existe)
  • Postos em terrenos particulares com ajuste redutor (fator entre 0,4 e 0,7, dependendo da região)

Fórmula prática que utilizo:

Valor posto em terreno de marinha = Valor posto em terreno particular × Fator de regime fundiário

Tipo de ocupaçãoFator típico (experiência IBAPE)
Concessão de direito real de uso (CDRU)0,65 – 0,75
Aforamento (enfiteuse)0,55 – 0,65
Permissão de uso precária0,40 – 0,50
Ocupação não autorizada0,10 – 0,20 (ou zero)

2. Método do Custo de Reprodução — Para as Benfeitorias

Quando o terreno não é do ocupante, o valor do posto está quase todo nas benfeitorias (construções, tanques, bombas, cobertura).

Aplicação correta:

  • Calcular o custo de reprodução das benfeitorias (CUB, SINAPI, tabela IBAPE)
  • Aplicar depreciação (Ross-Heidecke ou idade-vida)
  • Não incluir o terreno — ou incluir apenas o valor do domínio útil (se for o caso)

Importante: O posto em terreno de marinha, ao final da concessão, reverte à União com as benfeitorias (dependendo do contrato). Isso reduz o valor — e deve estar explícito no laudo.

3. Método da Renda — Com Dedução do Laudêmio e Foro

Se o posto opera e paga foro à União, o fluxo de caixa deve considerar:

  • Foro anual (0,5% a 1% do valor do terreno, conforme Decreto-Lei 9.760/46)
  • Laudêmio (5% sobre o valor da transferência do direito de ocupação)
  • Taxa de ocupação (se for permissão precária)

Exemplo prático:

ItemValor anual (R$)
Renda líquida do posto (estimada)350.000
(-) Foro pago à União(15.000)
(-) Provisão para laudêmio (média 5 anos)(12.000)
(=) Renda líquida ajustada323.000
CAP RATE ajustado (risco + regime fundiário)14%
Valor do domínio útil + benfeitorias2.307.000

Os 5 Pontos Críticos que Todo Laudo de Posto em Terreno de Marinha Deve Conter

1. Identificação Precisa da Situação Jurídica

O laudo deve anexar:

  • Certidão da SPU sobre a situação da ocupação
  • Número do processo administrativo (se houver)
  • Contrato de aforamento, concessão ou permissão
  • Comprovante de pagamento do foro (últimos 3 anos)

Sem isso, o laudo é incompleto. E será rejeitado por bancos e juízes.

2. Cálculo do Laudêmio na Transferência

Se o laudo for para compra e venda ou inventário, o comprador/herdeiro terá que pagar 5% de laudêmio à União sobre o valor da transferência do direito de ocupação.

O laudo deve:

  • Estimar o valor da transferência (domínio útil + benfeitorias)
  • Calcular o laudêmio (5%)
  • Deduzir esse valor do montante final (ou destacar como encargo do adquirente)

3. Análise da Reversibilidade das Benfeitorias

Alguns contratos da SPU determinam que as benfeitorias revertem à União ao final da concessão, sem indenização.

Impacto no valuation:

  • Prazo curto (ex.: 5 anos) → valor das benfeitorias fortemente depreciado
  • Prazo longo (20+ anos) → impacto menor, mas deve ser mencionado

4. Restrições Ambientais na Orla

Posto em terreno de marinha está, quase sempre, em Área de Preservação Permanente (APP) — orla marítima.

O laudo deve verificar:

  • Licença ambiental específica para operação em APP
  • Existência de embargo do órgão ambiental (IBAMA, estadual)
  • Possibilidade de não renovação da licença

Caso real: Posto na orla de Recife teve a licença ambiental negada após 10 anos de operação. O laudo para venda precisou considerar o posto como “benfeitoria com vida útil remanescente de 2 anos” — o valor caiu 85%.

5. Exigências dos Bancos para Garantia em Terreno de Marinha

A maioria dos bancos não aceita terreno de marinha como garantia plena. Exigem:

  • Prazo da concessão ≥ 15 anos
  • Anuência expressa da SPU para a alienação fiduciária
  • Seguro específico cobrindo risco de não renovação

No laudo para financiamento, deixe claro: “O imóvel é passível de aceitação como garantia, desde que atendidas as condições da SPU e do banco, com valor reduzido em X% em relação a imóvel em terreno particular.”


Checklist do Especialista — Documentos Obrigatórios

Antes de emitir qualquer laudo para posto em terreno de marinha, exija:

  • Certidão da SPU (emitida nos últimos 90 dias)
  • Número do processo de ocupação (CCIR da SPU, se houver)
  • Contrato de aforamento, concessão ou permissão (com prazo de vigência)
  • Comprovantes de pagamento do foro (últimos 3 anos)
  • Licença ambiental da operação (com validade)
  • Certidão de ações reais (União x ocupante)
  • Parecer jurídico sobre a exigibilidade da ocupação

Dica de ouro: Consulte o site da SPU (Patrimônio da União) para verificar se há processo de reintegração de posse em andamento. Isso anula qualquer valuation positivo.


Exemplo Prático — Laudo para Posto em Aforamento na Orla do Rio de Janeiro

Caso real (dados anonimizados):

  • Posto na Avenida Atlântica (Copacabana), em terreno de marinha aforado
  • Contrato de enfiteuse vigente (prazo indeterminado, renovável)
  • Foro anual: R$ 28.000
  • Valor de mercado de posto similar em terreno particular: R$ 8.500.000
  • Fator de regime fundiário aplicado: 0,60 (aforamento)
  • Valor das benfeitorias (custo de reprodução depreciado): R$ 2.100.000
  • Valor do domínio útil: R8.500.000×0,60R8.500.000×0,60−R 2.100.000 = R$ 3.000.000

Conclusão do laudo:

“O valor do posto, considerando o regime de aforamento em terreno de marinha, é de R5.100.000,sendoR5.100.000,sendoR 3.000.000 referentes ao domínio útil e R2.100.000aˋsbenfeitorias.Ocompradordeveraˊarcarcomlaude^miode52.100.000aˋsbenfeitorias.Ocompradordeveraˊarcarcomlaude^miode5 255.000) e continuar pagando foro anual de R$ 28.000 à União.”

O laudo foi aceito em processo de inventário e o juiz destacou: “Metodologia técnica em conformidade com a legislação da SPU e as normas de avaliação.”


Avaliar um posto em terreno de marinha não é difícil — é diferente. O erro mais comum é tratar o bem como propriedade plena. O laudo correto separa domínio útil, benfeitorias, foro e laudêmio, e respeita as regras da SPU.

Um laudo bem feito não apenas evita impugnações — ele educa o cliente, o banco e o juiz sobre a realidade jurídica do imóvel.

Baixe aqui nosso checklist completo para avaliação de postos em terreno de marinha (PDF + planilha de cálculo de laudêmio e foro atualizados pela SPU) — usado em mais de 20 laudos na orla brasileira.

Você já avaliou um imóvel em terreno de marinha? Como tratou o regime fundiário no laudo? Comente abaixo — vou analisar e sugerir ajustes com base na legislação da SPU e na NBR 14653-2.

Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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