Com mais de 15 anos de experiência, a Esatto Avaliações auxilia pessoas e empresas a atingirem seus objetivos financeiros e imobiliários, oferecendo serviços de avaliação precisos e transparentes.

Galeria

Contato

contato@esattoavaliacoes.com.br

41 99169-9464

Avaliação
Laudo para Lojas em Shoppings de Baixo Fluxo: Como Calcular o Deságio

Laudo para Lojas em Shoppings de Baixo Fluxo: Como Calcular o Deságio

Introdução

Você já avaliou uma loja em um shopping center com alta vacância, fluxo de clientes reduzido, âncoras fracas ou até mesmo fechadas? O empreendimento pode ter sido projetado nos anos 90 ou 2000, mas hoje enfrenta concorrência de shoppings mais modernos e do comércio eletrônico. Na hora de avaliar o imóvel (unidade autônoma), o ponto (contrato de locação) ou o negócio (fundo de comércio), a pergunta central é: qual o deságio sobre o valor de um shopping de alto fluxo? 20%? 50%? 80%?

Ao longo de 30 anos de avaliações e perícias, já avaliei lojas em shoppings decadentes, em recuperação judicial, com âncoras fechadas há anos, e com fluxo tão baixo que os lojistas ficavam ociosos. Aprendi que o deságio não é um percentual fixo — depende de fatores como localização, acesso, concorrência, mix de lojas, âncoras, e principalmente o fluxo real de clientes.

Neste artigo, você vai aprender a calcular o deságio para lojas em shoppings de baixo fluxo, usando métodos objetivos (análise de fluxo, concorrência, taxa de vacância, aluguel de mercado), segundo as normas NBR 14653-1 e NBR 14653-2.

O que é um Shopping de Baixo Fluxo? (Sintomas)

IndicadorShopping SaudávelShopping de Baixo FluxoImplicação para o Laudo
Taxa de vacância<5% (lojas sempre ocupadas)>20% (muitas lojas fechadas)Deságio alto
ÂncorasLojas âncora de primeira linha (Renner, C&A, Marisa)Âncoras fechadas ou de baixa qualidadeDeságio severo
Fluxo de clientesAlto (movimentação constante)Baixo (espaços vazios)Deságio proporcional ao fluxo
Aluguel (contratual vs. mercado)Aluguel de mercado (praticado)Aluguel abaixo do mercado (ou lojistas pedindo desconto)Deságio por risco de vacância
Valor da unidade autônoma (venda)Valor estável ou valorizaçãoDesvalorização acentuadaDeságio de 30% a 70%
Valor do fundo de comércio (goodwill)Múltiplo de 2-4× lucroMúltiplo baixo (0,5-1,5× lucro) ou zeroGoodwill pode ser negativo

Causas do baixo fluxo (que o avaliador precisa identificar):

CausaExemploImpacto no Deságio
Concorrência de shopping mais modernoShopping A (anos 90) vs. Shopping B (2020, mais próximo)-30% a -50%
Decadência da regiãoBairro perdeu poder aquisitivo, segurança caiu-40% a -70%
Mudança de hábito de consumoMigração para e-commerce (lojas de eletrônicos, livros, roupas)-20% a -40%
Âncora principal fechouO shopping perdeu a Renner e nunca mais conseguiu outra-50% a -80%
Problemas de acessoObra na via principal, estacionamento caro, segurança-20% a -40%
Gestão do shoppingAdministradora ineficiente, falta de investimento-20% a -50%

Método Objetivo para Calcular o Deságio (Passo a Passo)

Passo 1 — Determine o valor base (shopping de referência saudável)

Utilize como base o valor de lojas similares em shoppings de alto fluxo (mesma cidade ou região metropolitana). Esse é o valor sem deságio.

Exemplo: Lojas similares em shopping saudável (mesma área, mesmo padrão) valem R$ 10.000/m² para a unidade autônoma.

Passo 2 — Analise os fatores de risco do shopping de baixo fluxo

Fator de RiscoPesoNota (0 a 10)Deságio Parcial
Taxa de vacância (>20% = nota baixa)25%3/100,25 × (10-3)/10 = 0,175 (17,5%)
Âncoras (fechadas = nota baixa)20%2/100,20 × (10-2)/10 = 0,16 (16%)
Fluxo de clientes (baixo = nota baixa)20%2/100,20 × (10-2)/10 = 0,16 (16%)
Localização/acesso15%4/100,15 × (10-4)/10 = 0,09 (9%)
Concorrência (muita = nota baixa)10%3/100,10 × (10-3)/10 = 0,07 (7%)
Gestão do shopping (ineficiente = nota baixa)10%3/100,10 × (10-3)/10 = 0,07 (7%)
Deságio total100%72,5%

Interpretação: O shopping tem desempenho muito baixo (nota média 2,7/10). O deságio calculado é de 72,5%.

Passo 3 — Aplique o deságio ao valor base

Valor ajustado = Valor base × (1 – Deságio total)

Exemplo: Valor base (shopping saudável) = R10.000/m2×80m2=R10.000/m2×80m2=R 800.000
Deságio 72,5% → Valor ajustado = R800.000×(10,725)=R800.000×(1–0,725)=R 800.000 × 0,275 = R$ 220.000

Ou R2.750/m2(muitoabaixodosR2.750/m2(muitoabaixodosR 10.000/m² da referência).

Passo 4 — Validação pelo método da renda (aluguel real ou potencial)

Compare o valor ajustado com o valor presente dos aluguéis reais (ou potenciais) da loja.

Exemplo (mesma loja):

  • Aluguel real praticado (lojista paga): R1.500/me^sR1.500/me^sR 18.000/ano
  • Cap rate para shopping de baixo fluxo (risco alto): 12% a 15%
  • Valor pelo método da renda = R18.000÷0,13=R18.000÷0,13=R 138.000

Os valores podem divergir. O avaliador deve usar o menor entre os dois métodos (princípio da prudência) ou apresentar uma faixa de valores (R140.000aR140.000aR 220.000).

Deságios de Referência por Tipo de Shopping (Indicativos de Mercado)

Tipo de ShoppingDeságio sobre Shopping SaudávelObservação
Shopping regional consolidado (alto fluxo)0% (base)Referência
Shopping de bairro (fluxo médio, vacância 5-10%)-20% a -30%Deságio moderado
Shopping em decadência (vacância 15-25%, âncoras fracas)-40% a -60%Deságio severo
Shopping moribundo (vacância >30%, âncoras fechadas, baixo fluxo)-70% a -90%Deságio extremo
Shopping abandonado (vacância >80%, sem manutenção)-95% a -100%Valor residual (terreno)

Exemplos práticos de deságio (valores de mercado observados em laudos e transações):

ShoppingSituaçãoValor/m² de loja (unidade autônoma)Deságio
Shopping A (alto fluxo)SaudávelR$ 12.000/m²0%
Shopping B (bairro, fluxo médio)Vacância 8%R$ 8.500/m²-29%
Shopping C (decadente, âncora fechada)Vacância 22%R$ 4.000/m²-67%
Shopping D (moribundo)Vacância 45%R$ 1.500/m²-87,5%

Desafios Comuns na Avaliação de Lojas em Shoppings de Baixo Fluxo

  • Superestimar o fluxo de clientes (viés do proprietário ou do administrador): O fluxo de clientes pode ser 50% menor do que o administrador declara. O avaliador precisa verificar in loco (vários dias, vários horários).
  • Ignorar o efeito das âncoras fechadas: Se a âncora (Renner, C&A, etc.) fechou, o fluxo para as lojas menores pode cair 40% a 60%. O deságio precisa refletir isso.
  • Desconsiderar a concorrência do e-commerce: Para lojas de eletrônicos, livros, roupas de marcas não exclusivas, o e-commerce pode ter reduzido as vendas em 30% a 50%. O deságio precisa considerar a obsolescência do modelo de negócio.
  • Usar taxas de capitalização (cap rate) de shopping saudável: Erro grave. A cap rate para shopping de baixo fluxo é muito mais alta (12% a 20% vs. 6% a 9%).
  • Confundir valor da unidade autônoma (imóvel) com valor do fundo de comércio (negócio): Em shoppings de baixo fluxo, o negócio pode valer zero (ou negativo), enquanto o imóvel ainda tem valor residual (terreno + edificação). O avaliador precisa separar.

Dicas do Especialista (30 anos de experiência)

  1. Nunca avalie uma loja em shopping de baixo fluxo sem visitar o shopping em diferentes horários (dia da semana, fim de semana, manhã, tarde, noite). O fluxo de clientes é o principal fator de risco. Uma visita em horário de pico (sábado à tarde) pode mascarar a realidade.
  2. Documentos obrigatórios para o laudo:
    • Taxa de vacância do shopping (últimos 12 meses) — fornecida pela administração
    • Fluxo de clientes (contagem própria ou dados da administração) — desconfie
    • Aluguéis praticados (contratos de locação de lojas similares)
    • Demonstrações financeiras do shopping (se disponíveis — para FIIs)
    • Plano de recuperação judicial (se aplicável) — muitos shoppings de baixo fluxo estão em RJ
    • Laudo de manutenção do shopping (se a administração está negligenciando)
  3. Faça a análise comparativa com shoppings similares (não com o saudável): Compare o shopping de baixo fluxo com outros shoppings de baixo fluxo na mesma região. Se não houver, compare com o saudável e aplique deságio.
  4. Apresente no laudo dois cenários de valuation:
    • Cenário otimista: Se o shopping se recuperar (nova âncora, reforma, gestão trocada)
    • Cenário pessimista: Tendência atual (vacância aumentando, âncoras fechando)
    • Cenário mais provável: Meio-termo (a maioria dos shoppings de baixo fluxo não se recupera)

Case Técnico: Quando o shopping de bairro entrou em decadência e o deságio chegou a 80%

Avaliei uma loja de 100 m² em um shopping de bairro na zona norte do Rio de Janeiro. O shopping foi construído na década de 1990, com âncoras (Renner, C&A) que fecharam em 2015. Desde então, a vacância subiu para 35%. A administradora trocou três vezes. O fluxo de clientes era baixíssimo (menos de 1.000 pessoas/dia, contra 10.000/dia no shopping saudável da região).

Dados da loja (unidade autônoma):

  • Área: 100 m²
  • Valor de loja similar em shopping saudável (referência): R10.000/m2R10.000/m2→R 1,0 milhão
  • Aluguel real (lojista pagava): R1.800/me^sR1.800/me^sR 21.600/ano

Cálculo do deságio (método dos fatores):

FatorPesoNotaDeságio Parcial
Vacância (35%)25%2/100,25 × 0,8 = 20%
Âncoras (fechadas)20%1/100,20 × 0,9 = 18%
Fluxo (muito baixo)20%1/100,20 × 0,9 = 18%
Localização (periférica)15%3/100,15 × 0,7 = 10,5%
Concorrência (shopping mais moderno a 3 km)10%2/100,10 × 0,8 = 8%
Gestão (ineficiente)10%2/100,10 × 0,8 = 8%
Deságio total82,5%

Valor ajustado: R1,0milha~o×(10,825)=R1,0milha~o×(1–0,825)=R 175.000

Validação pelo método da renda: R21.600÷0,14=R21.600÷0,14=R 154.000

Valor final (média ponderada): R$ 165.000 (deságio de 83,5%)

O que aconteceu: A loja foi colocada à venda por R$ 350.000 (lojista achava que valia isso). Após 18 meses, nenhuma oferta. O lojista desistiu e a loja foi desocupada. Hoje está vazia.

Checklist para Avaliação de Lojas em Shoppings de Baixo Fluxo

Levantamento de dados do shopping:

  • Taxa de vacância (últimos 12 meses) — lojas fechadas
  • Âncoras (quais estão abertas? quais fecharam? há perspectiva de novas?)
  • Fluxo de clientes (contagem própria: mínimo 3 dias, 3 horários por dia)
  • Aluguéis praticados (comparar com lojas similares)
  • Mix de lojas (qualidade das marcas, quantidade de lojas vazias)
  • Estado de conservação (manutenção, limpeza, segurança)
  • Planos de recuperação (se o shopping está em RJ ou tem dívidas)

Cálculo do deságio:

  • Método dos fatores (vacância, âncoras, fluxo, localização, concorrência, gestão)
  • Método da renda (aluguel real / cap rate ajustada — 12% a 20%)
  • Método comparativo (com lojas em shoppings similares, não com saudáveis)

Fontes de dados confiáveis:

  • Administração do shopping (vacância, fluxo, aluguéis) — mas desconfie
  • Contagem própria de fluxo (método confiável)
  • Corretores especializados em shoppings da região (transações recentes)
  • Associação Brasileira de Shopping Centers (ABRASCE) — pesquisas de mercado
  • IBAPE (pesquisas de deságio para shoppings de baixo fluxo)

Conclusão e Chamada para Ação

Avaliar lojas em shoppings de baixo fluxo é um dos nichos mais complexos da engenharia de avaliações. O deságio sobre um shopping saudável pode variar de 30% (decadência moderada) a 90% (shopping moribundo). Não existe fórmula mágica: o avaliador precisa analisar vacância, âncoras, fluxo de clientes, concorrência e gestão.

O método dos fatores (ponderando os riscos) é uma ferramenta prática, mas deve ser validado pelo método da renda (aluguel real / cap rate alta) e pelo método comparativo (se houver transações recentes). O princípio da prudência recomenda adotar o menor valor entre os métodos.

Lembre-se: a NBR 14653-1 exige que o avaliador considere todas as variáveis que afetam o valor. Em shoppings de baixo fluxo, as variáveis mais importantes são a vacância, as âncoras e o fluxo de clientes — não a área construída.

Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *