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Avaliação de Flats e Aparthotéis: Residencial ou Comercial? A Metodologia Correta

Avaliação de Flats e Aparthotéis: Residencial ou Comercial? A Metodologia Correta

Introdução

Você já avaliou um flat — aquele imóvel que é vendido como “apartamento”, mas funciona como hotel, com recepção 24h, serviço de quarto, diárias curtas e uma taxa de condomínio que é o dobro de um residencial comum? Na hora de avaliar, bate a dúvida: uso método residencial (comparando com apartamentos comuns) ou comercial (comparando com hotéis ou com o método da renda)?

Ao longo de 30 anos de avaliações e perícias, já avaliei centenas de flats e aparthotéis — desde os pequenos estúdios no centro de São Paulo até os empreendimentos de luxo na orla do Rio de Janeiro. Aprendi que o erro mais comum é tratar o flat como um imóvel residencial comum, ignorando seu potencial de geração de renda e suas desvantagens (condomínio alto, restrições de uso). O resultado? Laudos subavaliados ou superavaliados, dependendo do viés do avaliador.

Neste artigo, você vai aprender a avaliar flats e aparthotéis com rigor técnico, segundo as normas NBR 14653-1 e NBR 14653-2, escolhendo o método correto de acordo com o uso efetivo do imóvel (residencial permanente, locação temporária ou misto).

Flat e Aparthotel: O que São (e Por que Causam Confusão)?

CaracterísticaResidencial ComumFlat / AparthotelHotel
Unidade autônomaSimSimNão (quarto integrado)
Cozinha equipadaOpcionalGeralmente simNão (ou apenas kitchenette)
Serviços (recepção, limpeza)NãoSim (parciais a completos)Sim (completos)
Prazo de locaçãoMínimo 30 dias (Lei do Inquilinato)Diárias, semanais ou mensaisDiárias
Taxa de condomínioPadrãoAlto (inclui serviços)Não se aplica
Potencial de rendaBaixo (locação residencial)Alto (locação temporária)Muito alto (hotel)
LiquidezAlta (para residencial)Média (nicho)Baixa (ativo comercial)

A confusão conceitual: Um flat pode ser usado como residência permanente (aí se aproxima do residencial), como investimento para locação temporária (aí se aproxima do comercial) ou como apartamento hoteleiro integrado a uma operação centralizada (aí se aproxima do hotel).

O Método Correto Depende do Uso Efetivo

A NBR 14653-2 não tem uma seção específica para flats, mas o princípio da individualidade do imóvel se aplica: o avaliador deve considerar o uso efetivo do imóvel, não sua denominação comercial.

Uso Efetivo do FlatMétodo Mais AdequadoPor quê?
Residência permanente (proprietário mora)Comparativo Direto (residencial)O valor é definido pelo mercado residencial, não pela renda potencial
Locação temporária (proprietário aluga por diária)Método da Renda (capitalização do aluguel potencial)O comprador compra pela renda, não pelo uso pessoal
Operação hoteleira centralizada (aparthotel)Método da Renda (participação nos lucros do hotel)O flat é parte de um negócio maior
Uso misto (proprietário usa parte do ano, aluga o resto)Método misto (comparativo + renda ponderado)Meio-termo entre os dois

Método 1 — Comparativo Direto (para flats usados como residência)

Se o flat é usado como residência permanente (proprietário mora ou aluga por temporada mínima de 30 meses), o método mais adequado é o comparativo direto com outros flats na mesma região (ou com apartamentos residenciais similares, com ajustes).

Fatores de ajuste para comparar flat com apartamento residencial:

FatorFlatApartamento ResidencialAjuste
Taxa de condomínioAlta (inclui serviços)BaixaFlat vale menos (custo mensal maior)
Serviços inclusos (recepção, limpeza)SimNãoFlat vale mais (comodidade)
Restrição de uso (não pode reformar livremente)Geralmente simNãoFlat vale menos
Potencial de locação (diária)AltoBaixo (mínimo 30 meses)Flat vale mais (para investidor)

Exemplo (flat usado como residência permanente):

  • Apartamento residencial similar na região: R$ 500 mil
  • Ajuste para flat (condomínio mais alto, restrições): -10% → R$ 450 mil
  • Valor do flat: R$ 450 mil

Método 2 — Método da Renda (para flats usados como investimento em locação temporária)

Se o flat é comprado exclusivamente para locação por diária (Airbnb, booking, ou através da administradora do flat), o comprador não está comprando um lugar para morar — está comprando um negócio. O método correto é o da renda.

Valor = (Receita líquida anual de locação) / (Taxa de capitalização para flats)

Componentes da receita líquida:

  • Receita bruta de locação (diárias × ocupação média)
  • Menos: comissões da plataforma (Airbnb, Booking) ou da administradora
  • Menos: taxa de condomínio (que é alta nos flats)
  • Menos: IPTU, seguro, manutenção
  • Menos: reserva para vacância (meses sem locação)

Exemplo (flat de 40m² em São Paulo, usado para Airbnb):

  • Diária média: R$ 250
  • Ocupação média: 70% (255 dias/ano)
  • Receita bruta anual: R250×255=R250×255=R 63.750
  • Comissão Airbnb (15%): R$ 9.562
  • Taxa de condomínio (R800/me^s):R800/me^s):R 9.600
  • IPTU + seguro + manutenção: R$ 4.000
  • Receita líquida anual: R63.750R63.750–R 9.562 – R9.600R9.600–R 4.000 = R$ 40.588
  • Taxa de capitalização (risco de vacância, sazonalidade): 10%
  • Valor = R40.588÷0,10=R40.588÷0,10=R 405.880

Comparação: O mesmo flat, avaliado como residencial, valeria cerca de R450mil.Pelomeˊtododarenda,valeR450mil.Pelomeˊtododarenda,valeR 406 mil (10% menor). A diferença reflete o risco da operação de locação temporária.

Método 3 — Método da Renda com Pool de Hóspedes (aparthotel)

Quando o flat faz parte de um aparthotel (operação centralizada, com recepção única, serviços completos, e o proprietário recebe um percentual da receita do hotel), o valuation é mais complexo.

Valor = (Participação do proprietário no NOI do hotel) / (Taxa de capitalização hoteleira)

Exemplo (aparthotel com 50 flats, participação do proprietário de 50% do NOI do flat):

  • NOI total do aparthotel (operadora centralizada): R$ 2,5 milhões
  • Participação do proprietário (50%): R$ 1,25 milhão
  • Número de flats: 50
  • Participação por flat: R$ 25.000
  • Taxa de capitalização hoteleira (risco médio): 10%
  • Valor por flat = R25.000÷0,10=R25.000÷0,10=R 250.000

Comparação: O mesmo flat, avaliado como residencial, valeria R$ 450 mil — quase o dobro. Por quê? Porque no aparthotel, o proprietário não tem controle sobre a operação (quem decide é a operadora), e os custos (condomínio, administração) são altos. O valor de mercado reflete essa realidade.

Desafios Comuns na Avaliação de Flats e Aparthotéis

  • Confundir flat com apartamento residencial (erro mais comum): O avaliador usa comparáveis residenciais, ignora a taxa de condomínio mais alta e as restrições de uso, e superavalia o flat em 20% a 30%.
  • Usar apenas o método da renda sem validar a ocupação: O proprietário mostra ocupação de 90% (na alta temporada), mas a média anual é 50%. O avaliador precisa de 12 a 24 meses de dados.
  • Ignorar a sazonalidade: Flats em destinos turísticos têm alta temporada (verão) e baixa (inverno). A receita líquida anual precisa refletir o ano inteiro.
  • Desconsiderar o risco regulatório (Airbnb): Muitas cidades estão regulamentando (ou proibindo) locação por temporada em flats. O risco de restrição legal deve ser incorporado à taxa de capitalização.
  • Superestimar a valorização do flat: Proprietários de flats acreditam que o imóvel valoriza como um residencial (5% ao ano) e ainda rende aluguel de temporada. Na prática, a valorização de flats é menor (2% a 3%), devido à maior oferta e à depreciação dos serviços comuns.

Dicas do Especialista (30 anos de experiência)

  1. Nunca avalie um flat sem saber qual é o uso efetivo. Pergunte: o proprietário mora? Aluga por temporada? O flat está num aparthotel com operadora centralizada? Cada uso exige um método diferente.
  2. Documentos obrigatórios para o laudo:
    • Convenção do condomínio (para identificar restrições de uso, percentual de flats permitidos para locação temporária)
    • Regulamento interno (serviços inclusos, horários, proibições)
    • Extrato de pagamento do condomínio (para confirmar o valor)
    • Dados de locação (se aplicável): 12-24 meses de ocupação e diárias
    • Contrato com operadora (se aparthotel): participação, custos, exclusividade
  3. Verifique a proporção de flats no empreendimento: Se o condomínio tem 50% de flats usados como residência e 50% como locação temporária, há conflito de interesses. Moradores reclamam da rotatividade de hóspedes. Isso reduz o valor (especialmente para quem quer morar).
  4. Atenção à taxa de condomínio: Em flats, a taxa de condomínio é geralmente o dobro ou o triplo de um residencial similar (porque inclui serviços). Para o comprador que vai morar, isso é um custo mensal que reduz o valor. Para o investidor, é deduzido da receita de locação.

Case Técnico: Quando o mesmo flat teve três valores diferentes (residencial, renda, aparthotel)

Avaliei um flat de 45m² em um empreendimento misto em Florianópolis (SC). O flat podia ser usado de três formas. Apresentei os três cenários para o cliente (proprietário, que queria vender).

Cenário 1 — Uso residencial (proprietário mora):

  • Comparativo com residenciais na região: R$ 520 mil
  • Ajuste para flat (condomínio alto, restrições): -10% → R$ 468 mil

Cenário 2 — Locação temporária (Airbnb, proprietário opera):

  • Receita líquida anual (24 meses de dados): R$ 42 mil
  • Taxa de capitalização (risco Airbnb, sazonalidade, regulação): 11%
  • Valor = R42.000÷0,11=R42.000÷0,11=R 382 mil

Cenário 3 — Aparthotel (operadora centralizada):

  • Participação do proprietário no NOI do hotel: R$ 18 mil/ano
  • Taxa de capitalização hoteleira (risco maior, sem controle): 9%
  • Valor = R18.000÷0,09=R18.000÷0,09=R 200 mil

Três valores: R468mil(residencial)∣R468mil(residencial)∣R 382 mil (Airbnb) | R$ 200 mil (aparthotel)

O cliente ficou surpreso. Ele achava que o flat valia R550mil(combasenoquepagounaplanta).Ocomprador,quequeriausaroflatparamoradiaeventual(cenaˊriomisto),pagouR550mil(combasenoquepagounaplanta).Ocomprador,quequeriausaroflatparamoradiaeventual(cenaˊriomisto),pagouR 420 mil — um meio-termo entre o residencial e o Airbnb.

Checklist para Avaliação de Flats e Aparthotéis

Identificação do uso efetivo:

  • Proprietário mora? (residencial)
  • Proprietário aluga por temporada (Airbnb, booking)? (renda)
  • Flat integrado a aparthotel com operadora centralizada? (hoteleiro)
  • Uso misto (parte do ano mora, parte aluga)? (misto)

Documentação:

  • Convenção do condomínio (restrições de uso)
  • Regulamento interno (serviços, horários, proibições)
  • Extrato de condomínio (valor, itens inclusos)
  • Dados de locação (se aplicável): 24 meses de ocupação e diárias
  • Contrato com operadora (se aparthotel)

Valuation (escolher método conforme uso):

  • Residencial: Comparativo direto com outros flats ou com residenciais ajustados
  • Renda (Airbnb): NOI (receita líquida) / taxa de capitalização (10% a 14%)
  • Aparthotel: Participação no NOI / taxa de cap hoteleira (8% a 12%)
  • Misto: Média ponderada dos métodos (ex.: 50% residencial + 50% renda)

Ajustes importantes:

  • Taxa de condomínio alta: reduz o valor no método residencial
  • Sazonalidade: anualizar a receita (usar 12-24 meses, não apenas alta temporada)
  • Risco regulatório (Airbnb): aumentar taxa de cap em 1-2%
  • Conflito morador x hóspede: reduz valor para uso residencial

Fontes de dados confiáveis:

  • Associação Brasileira de Flats e Aparthotéis (ABRAFLAT)
  • Airbnb, Booking — dados de diárias e ocupação (proprietário deve fornecer)
  • IBAPE (pesquisas de flats e aparthotéis)
  • Corretores especializados em flats (segmento de investimento)
  • Condomínios de flats comparáveis (taxas, restrições)

Conclusão e Chamada para Ação

Flat não é apartamento residencial — mas também não é hotel. É um ativo híbrido, cujo valor depende do uso efetivo. O avaliador que trata flat como residencial está superavaliando o imóvel para quem compra como investimento (porque ignora os custos e riscos da locação temporária). O avaliador que trata flat como hotel está subavaliando para quem quer morar (porque ignora o valor de uso pessoal).

A resposta está na metodologia correta para cada caso: comparativo direto para uso residencial, método da renda para investimento em locação, e método hoteleiro para aparthotéis integrados.

Lembre-se: a NBR 14653-1 exige que o avaliador considere o uso efetivo do imóvel e o propósito da avaliação. Para flats, essa exigência é ainda mais crucial — porque o mesmo imóvel físico pode ter valores muito diferentes dependendo de quem o compra e para quê.

Author

Leandro Cazaroto

Leandro Cazaroto, Perito Avaliador e Corretor de Imóveis registrado no CNAI nº 21.963 e CRECI nº 18.982, é especializado em avaliações e perícias imobiliárias

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